O valor estratégico de cidades médias e grandes nas eleições municipais

O valor estratégico de cidades médias e grandes nas eleições municipais

Leonardo Martins Barbosa*

25 de outubro de 2020 | 10h00

Leonardo Martins Barbosa. FOTO: DIVULGAÇÃO

Os pleitos municipais não têm relação necessária com as eleições presidenciais. Os temas debatidos são outros, de viés local, e nem sempre são indicativos dos sentimentos da opinião pública sobre o desempenho do presidente ou sobre temas nacionais. Isso ajuda a entender, por exemplo, por que, a despeito da significativa redução do número de prefeituras do PT em 2016, seu candidato à presidência em 2018, Fernando Haddad, chegou ao segundo turno.

Essa diferença entre os dois tipos de pleito, não cancela, contudo, o valor estratégico das eleições municipais para os partidos políticos. Pelo contrário, muitos usam as eleições municipais para consolidar suas bases, formar lideranças, testar políticas públicas e fortalecer sua marca. Isso é tanto mais verdade para os municípios com mais de 200 mil eleitores (o que inclui todas as capitais brasileiras, exceto Palmas). Essas cidades concentram boa parte da população e da riqueza do país. Além disso, nelas existe campanha na TV aberta (o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral) e há previsão de segundo turno caso algum candidato não obtenha mais de 50% dos votos válidos. Em 2000, havia 62 cidades nessa categoria. Nas últimas eleições, em 2016, 92 atingiam essa marca demográfica, sendo que o Sudeste concentra mais da metade delas. Em 2020, serão 95 municípios.

Ou seja, nessas poucas cidades (no universo de mais de 5.000 municípios no Brasil), os partidos têm a oportunidade de organizar suas bases e defender suas ideias para uma parte muito substantiva do eleitorado. Isso é especialmente verdadeiro para agremiações com pretensões nacionais, principalmente à cadeira presidencial. Nessas siglas, a estratégia de campanha para esse seleto grupo de cidades grandes tem participação decisiva e ativa dos diretórios nacionais enquanto a organização de campanha no restante das cidades fica a cargo de diretórios regionais e municipais. Assim, as estratégias adotadas pelos partidos nas cidades grandes refletem melhor o jogo de alianças nacional do que aquelas adotadas nos municípios pequenos.

Partidos como PSB, PDT e DEM aparecem com frequência dentre as cinco mais bem posicionadas no conjunto de cidades aqui analisadas. A força da máquina política do PMDB (hoje MDB) nos municípios é conhecida – a legenda controla há tempos o maior número de municípios no país – de modo que a presença desse partido entre os três mais bem colocados é esperada. Entretanto, o que chama a atenção é o predomínio de PT e PSDB, partidos que também protagonizaram a disputa presidencial nas últimas décadas, ambos postados quase sempre à frente do PMDB. O PT, em particular, desde 2000, quando ainda era oposição, foi repetidamente o partido a controlar o maior número de prefeituras das maiores cidades.

Tendo governado poucos estados até 2006, os petistas usaram essas prefeituras para formular políticas e preparar quadros que ocupariam o governo entre 2003 e 2016, como é o caso de Tarso Genro, Antonio Palocci, Patrus Ananias, dentre outros.

A queda no número de prefeituras em 2016 é sintoma da crise vivida pelo partido na época do impeachment. Ao mesmo tempo, o PSDB surge em 2016 como o partido mais vitorioso nesse conjunto de cidades, tendo vencido as eleições em quase ⅓ delas, incluindo a cidade que muitos consideram a joia da coroa, São Paulo, onde João Doria desbancou o candidato à reeleição petista Fernando Haddad. É importante apontar para os exemplos inversos de PT e PSDB. Se o primeiro, como dissemos, foi mal nas eleições municipais de 2016 e bem na presidencial de 2018, o PSDB saiu das eleições de 2016 como partido consolidado nos grandes centros urbanos, mas teve um desempenho fraquíssimo no pleito seguinte, com o candidato Geraldo Alckmin. Os percalços de PT e PSDB revelam, assim, duas faces da crise que desde 2016 assola o sistema partidário brasileiro.

Para 2020, é de se esperar que os partidos ou blocos que almejam disputar a próxima eleição presidencial se esforcem para lançar candidaturas próprias principalmente nesse grupo de cidades, tendência reforçada ainda pelo fim das coligações proporcionais. É o que planeja fazer o PT na maioria desses mais de 90 municípios. O PSDB, por sua vez, deve seguir caminho parecido, com a ressalva de que a prioridade do partido continua a ser São Paulo, estado de origem dos tucanos e que concentra parte significativa das cidades médias do país. Em 2016, 14 das 29 cidades conquistadas pelos tucanos eram paulistas.

A dúvida fica por conta da estratégia que será adotada pelo “bolsonarismo”: sem um partido sólido, os aliados do presidente se dividem em muitas siglas, encontrando abrigo principalmente no Republicanos (do prefeito carioca Marcelo Crivella e do candidato à prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno) e no PSL, ex-partido do presidente com o qual ele ainda mantém laços. A estrutura partidária, seja do próprio partido do candidato seja da coligação que o apoia, sempre foi fundamental para o sucesso da campanha presidencial até 2018, quando Bolsonaro conseguiu vencer uma eleição “montado” em um partido nanico e sem coligação. Historicamente, a estrutura partidária foi também fundamental para o sucesso nas eleições municipais. Resta saber se a ausência de um partido estruturado afetará a evolução da nova direita brasileira no médio prazo. Por ora, o que podemos afirmar é que tal falta limita as articulações do presidente nas eleições municipais, principalmente nas maiores cidades do país, bem como as chances de usar o pleito para consolidar sua base política, como fizeram PT e PSDB ao longo das décadas da Nova República.

*Leonardo Martins Barbosa, ientista político na Poliarco Inteligência política. Doutor em Ciência Política pelo IESP/UERJ, onde elaborou uma tese sobre conflito partidário no Brasil contemporâneo. É pesquisador do Núcleo de Estudos sobre o Congresso (NECON) e do Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB)

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