O valor da morte

O valor da morte

Ricardo Viveiros*

08 de fevereiro de 2021 | 09h30

Ricardo Viveiros. FOTO: DIVULGAÇÃO

Fica muito triste a vida quando não se dá valor à morte. Isto mesmo, valor à morte. Mais ou menos, damos alguma importância à vida, embora, como fazemos com a grande maioria dos eletrônicos que temos em casa e no trabalho, não saibamos usar nem 50% do que ela nos oferece de felicidade.

Quem não dá valor à morte, não sabe como é bom viver — mesmo que sejam muitos e complicados os problemas do seu dia a dia. Há quem enfrente, até de uma só vez, a falta de saúde, educação, moradia, cultura e, principalmente, do que lhe possa dar a mínima dignidade para obter tudo isso, mesmo que um pouquinho só de cada: a oportunidade de trabalho.

Assim mesmo, parte integrante dos “sem”, reúne muitas pessoas que ainda têm esperança e lutam para conquistar seu lugar ao sol, nem que seja sob um tímido raio que se esgueira entre as sombras do sofrimento. Tais pessoas, nobres de alma e cheias de boa vontade, fogem das ofertas de renda fácil, corrupção e maldade que insistem em lhes oferecer traiçoeiras chances a cada esquina da vida.

Quem opta por algumas profissões que exigem abnegação, sabe que será preciso amor, empenho e um compromisso ético inalienável no exercício de cada uma dessas atividades. Que não poderá jamais ter a sua consciência cooptada por qualquer espécie de sedução. Que trabalha como quem acredita em algo maior além da vida, com fé na recompensa da alma.

Há exatamente dois anos, no dia 8 de fevereiro de 2019, um incêndio no alojamento para jovens atletas de futebol no Centro de Treinamento do Clube de Regatas do Flamengo, local conhecido como “Ninho do Urubu”, no bairro Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ), matou 10 e feriu três jovens, entre 14 e 17 anos de idade.

Todos de famílias simples, vindos de diferentes estados do País, hospedados em containers improvisados como quartos coletivos em uma área destinada a ser estacionamento. Segundo apurado pelas autoridades públicas, não havia o devido alvará para o funcionamento desse local. O Ministério Público indiciou 11 pessoas, incluindo o então presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, por “incêndio culposo” (sem intenção). O clube havia sido alertado meses antes de graves falhas nas instalações elétricas, o que pesou para a Defensoria Pública considerar “prova inconteste da responsabilidade do clube”.

Como não foram denunciados por homicídio, os responsáveis não irão a júri popular. Para estes crimes, na forma “culposa”, o Código Penal não prevê pena de prisão em regime fechado, apenas detenção em regime aberto ou semi-aberto. As penas podem variar de um ano e quatro meses até 6 anos.

Proponho a reflexão: Ao colocar esses jovens humildes, todos vivendo o sonho de ser um craque de futebol em clube conhecido, dentro de um container improvisado de alojamento, com o prévio alerta de graves falhas na instalação elétrica, foi acidente (culposo) ou assassinato (doloso)? Afinal, quem sabia previamente de todos os riscos e não deu importância a eles, colocou propositalmente a vida dos jovens em perigo. Ou seja, estava consciente de que era possível acontecer um acidente e apostou na sorte.

Atendendo a um pedido do C.R. Flamengo, a Justiça do Rio de Janeiro extinguiu a pensão que o clube era obrigado a pagar às famílias das vítimas do incêndio, nos casos em que ainda não houve acordo com o clube e o atleta morto seria hoje maior de idade. Para as famílias daqueles que, atualmente, ainda não teriam completado 18 anos (e que também não fizeram acordo extrajudicial), a Justiça reduziu a pensão mensal de R$ 10.000,00 para R$ 5.225,00 (de 10 para cinco salários mínimos vigentes).

E o aspecto emocional? Quanto vale? Como ficam os parentes das vítimas diante da falta de punição a quem lhes roubou os filhos, netos, irmãos? Será feita justiça com os que, contra a lei da natureza, colocaram pais sepultando filhos mortos ainda no despertar para a vida?

Outra tragédia, com proporções maiores e os mesmos erros de responsabilidade, fez no mês passado oito anos. O incêndio da boate “Kiss”, em Santa Maria (RS). Tanto tempo depois, as famílias das vítimas também seguem clamando por justiça. São, os dois casos, sem prejulgar a culpa e confiando nas ações das autoridades responsáveis, provas incontestes de absoluta falta de respeito à morte.

Se quem destrói o futuro e tira o direito à vida tivesse o mínimo respeito à morte e ao que ela representa de importância, esses jovens não teriam se tornado consequências desse desrespeito. Sem falar de tantas outras mortes no trânsito, em brigas de rua, em ações policiais equivocadas, em exageros nas baladas, em violência doméstica e por aí vão os lamentáveis fatos que acontecem no País.

A morte é séria, cruel e definitiva. A vida é bela, divertida e temporária. Que as vítimas dessas tragédias possam, quando feita a cabível justiça, descansar em paz e deixar o exemplo de que é preciso leis rígidas, rigor das autoridades no seu cumprimento e ética de todos para a vida ser menos cruel, mais feliz.

*Ricardo Viveiros é jornalista, professor e escritor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, membro honorário da Academia Paulista de Educação (APE) e autor, entre outros, dos livros Justiça Seja Feita, Pelos Caminhos da Educação e O Poeta e o Passarinho

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