O triunfo do vexame

O triunfo do vexame

Roberto Dumas*

09 de abril de 2019 | 04h00

Roberto Dumas. FOTO: DIVULGAÇÃO

A ida do ministro da Economia, Paulo Guedes, à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados na semana passada representou um vexame quase geral. Pudemos constatar deputados com dificuldades simples de concatenar ideias básicas enquanto outros colegas demonstraram uma desonestidade intelectual atroz, querendo trazer o ministro Paulo Guedes para o combate com o intuito de vê-lo sucumbir a sua verve de poucas, mas verdadeiras e duras palavras.

O mais abjeto caldo de horror eclodiu por parte dos desonestos e ignorantes, que mais uma vez confundem causa e consequência em relação à juros, desemprego e criação de renda. Para este grupo de parlamentares, é como se o governo quisesse lançar seu manto maldito sobre os “descamisados esquecidos de Collor” ajudando o grande capital. Aliás, que diabos é isso? Grande capital? Virou meme para tudo, assim como chamar quem defende o óbvio econômico de fascista.

Pela enésima vez fatorial; o grande capital somos nós poupadores, que investimos em fundos DIs e títulos do tesouro direto. De volta à reunião e ao cotejo dos que atacam a necessidade da reforma da previdência, ouve-se o grito para que se tributem as grandes fortunas. Os que gritam nada mais são do que pseudo arcanjos do bem-estar dos menos privilegiados e promotores do juízo final dos mais abastados. Seria incrivelmente inteligente, se eles pudessem perceber que qualquer possibilidade de isso acontecer suscitaria uma enorme fuga de capitais do País.

Outra grita muito comum: “então cobrem das empresas devedoras da previdência”. Outros ungidos pela água sagrada e derramada do Santo Graal sugerem, mas negligenciam malévola ou estupidamente a diferença entre estoque e fluxo, quando tratamos sobre déficit anual da previdência.

Já esperava esse show de second tier intelectual dos estadistas de plantão, mas já passou da hora de atualizarem seus discursos, que não mudam desde a queda do muro de Berlim.

A reunião, terminada em tumulto na CCJ, evidencia que por ora – e lamentavelmente – triunfa o vexame enquanto o navio Brasil aderna perigosamente.

A reforma da previdência é imperiosa e não apenas para que alguma estabilidade passe a reinar no País. Fato é que, se mais uma vez a votação dessa matéria ficar comprometida, as consequências dramáticas não terão impacto apenas sobre o governo Bolsonaro, mas também sobre as finanças do estado brasileiro: vale, portanto, para governos futuros. E é lamentável constatar que o Parlamento brasileiro é composto por uma maioria inescrupulosa que quer empurrar o problema para a frente, quando o capital tempo a cada dia fica mais escasso.

*Roberto Dumas tem mais de 30 anos de atuação no mercado financeiro doméstico e internacional. Trabalhou em diversas instituições como UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA. De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai e em 2016 e 2017 atuou no banco dos Bricsa em Shanghai (New Development Bank) nas áreas de operações estruturadas e risco de crédito

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