O triste abandono das hidrovias brasileiras

O triste abandono das hidrovias brasileiras

Lucas Tatibano*

13 de abril de 2019 | 13h00

Lucas Tatibano. FOTO: HELOÍSA YAMASHIRO

Na manhã do último dia 6 de abril, acordamos com mais uma triste notícia para a engenharia nacional: o desabamento de uma ponte viária sobre o Rio Moju, na região nordeste do Estado do Pará, em razão de um impacto promovido por uma balsa que carregava rejeitos de dendê.

Não nos causa espanto que essa balsa estava com a documentação irregular, o que é fator predominante na maioria dos “acidentes” que tem ocorrido no Brasil, incluindo helicópteros, aviões, caminhões, e muitos outros, os quais se aproveitam da minguante fiscalização para colocar em risco todo e qualquer brasileiro.

A fiscalização das hidrovias brasileiras pode ser classificada como péssima, ou inexistente, haja vista a gigante extensão de vias aquáticas disponíveis e utilizadas no território nacional, principalmente na região norte do Brasil. Essa falta de fiscalização representa um dos principais motivos do acidente que causou a queda da ponte sobre o Rio Moju.

Outro principal motivo consiste na vistoria realizada pelo governador e sua equipe técnica nas pontes que integram a Alça Viária do Pará, a qual aconteceu no início do ano, quando começou o seu mandato. Nessa vistoria foram identificadas falhas estruturais graves nas estruturas das pontes, como a exposição das armaduras das fundações devido ao desgaste do concreto, o que contribui para um eventual desabamento ou colapso na ocorrência de impactos acidentais.

O estudo técnico contratado pelo governo do estado do Pará, após a identificação das falhas graves nas estruturas, foi tratado em segundo plano, e entregue recentemente, demandando mais de 60 dias. Contudo, esse parecer técnico resultou na determinação da melhoria da sinalização náutica existente para evitar acidentes – no que, me desculpem os técnicos, qualquer marinheiro poderia determinar num prazo máximo de 1 semana.

Quando analisamos as recentes imagens da ponte desabada, junto a qual ainda se encontrava a balsa causadora do acidente, verificamos que o ilustre e demorado parecer dos técnicos, determinando o reforço da sinalização náutica, não seria eficaz para evitar o impacto, uma vez que é notória a perda do controle da embarcação em razão das fortes correntezas, fazendo com que a balsa fosse arremessada contra a estrutura de suporte da ponte, atravessando inclusive, o dispositivo de amortecimento existente.

Nesse contexto, torna-se muito simples para os políticos colocar a culpa no operador da balsa irregular, mas nós, brasileiros íntegros, sabemos que os verdadeiros culpados são esses mesmos políticos e os muitos gestores públicos, os quais foram os responsáveis por aprovar os projetos e as obras sem considerar os itens primordiais de segurança.

Esses mesmos gestores que ignoraram, durante anos, as deliberações das vistorias, assim como por negligenciar a rígida fiscalização das embarcações, permitindo a crescente decadência das hidrovias na Região Norte do Brasil.

Fica a pergunta: por que um canal hidroviário de tráfego intenso, como é o Rio Moju, não possui dolfins de proteção em todas as pontes, junto ao canal de navegação. Os dolfins são estruturas sólidas de concreto implantadas defronte aos pilares principais das pontes, que num eventual descontrole da embarcação, permite absorver o impacto, evitando o contato direto com os pilares, e consequentemente, evitando o colapso da ponte.

Agora, após o desabamento da ponte sobre o Rio Moju, o trabalho do governo estadual ficará facilitado pois, com a declaração da situação de emergência, as contratações poderão ser feitas sem licitação. As mesmas são estimadas, inicialmente, em R$ 100 milhões.

*Lucas Tatibano é especialista em planejamento e métodos construtivos de obras de infraestrutura e sócio da Tequipe

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