O trabalho e os políticos

O trabalho e os políticos

Gerson Leite de Moraes*

05 de maio de 2020 | 10h00

Gerson Leite de Moraes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Caro leitor, você já deve ter lido na internet ou presenciado numa roda de conversa entre amigos, alguém sugerindo a diminuição dos salários de políticos. Em época de pandemia, isto tornou-se mais comum ainda. Por que temos a impressão que os nossos políticos não são merecedores do salário que recebem? Eles, de fato, não trabalham? Eu ouso dizer que a maioria trabalha sim, aliás, alguns trabalham muito; já outros, uma parcela razoável da classe política, finge que trabalha na expectativa de dar uma justificativa para o seu eleitorado, alguns destes até por inabilidade com a estrutura política, acabam engolidos pelo sistema e tornam-se insignificantes, e o problema é que continuam recebendo seus salários, mesmo sendo incompetentes. Contudo, há um grupo que de maneira deslavada, sem a menor vergonha, entra para a política para trabalhar para si somente, estes maus políticos são aqueles usam das estruturas políticas para desviar verbas e se enriquecer de maneira ilícita, posando como santos e, geralmente, levantando a bandeira contra a corrupção nas campanhas eleitorais. São os famosos santos do pau oco. São maus políticos e consequentemente maus trabalhadores, pois a prática da política é um trabalho.

Os maus políticos são herdeiros da velha e perniciosa Razão de Estado, onde as condutas claramente imorais, praticadas na esfera das relações interpessoais, que geralmente confundem o público com o privado, acabam sendo tidas como coisas “normais”. Eles geralmente transformam a política em algo tão lucrativo, que o negócio acaba sendo passado de pai para filho e o que temos são famílias inteiras especializadas na arte da má política. Na ânsia de nos vermos livres destes escroques, às vezes acabamos comprando o discurso da renovação política, como se nenhum político da atualidade prestasse, renovamos para não mudar absolutamente nada, pois os que ocupam os cargos, rapidamente aprendem os velhos vícios estruturais da má política. O que fazer então? Precisamos escolher melhor os nossos políticos, e se eles forem bons políticos e bons trabalhadores, não teremos qualquer problema em remunerá-los bem.

Marco Antonio Cicero (106 a.C- 43 a.C) orador e político romano, tem uma série de obras que nos oferecem algumas pistas que ajudam na escolha de bons políticos. Ele diz que, entre os deveres dos políticos, dois preceitos devem acompanhá-los e servir de parâmetros para as nossas escolhas. Cicero diz o seguinte: “É de absoluta necessidade que as pessoas que vão gerir o governo da República atenham-se a dois preceitos: primeiro, que o bem dos cidadãos deve ser tutelado de modo que tudo quanto for feito seja direcionado para tal finalidade mesmo com sacrifício de vantagens próprias. Segundo, zelar pelo inteiro corpo do Estado e não só por uma parte com preterição das demais. Por isso, tal como a tutela assim a administração devem ser para a utilidade dos governados e não do governante”.

Os critérios são simples para averiguar os trabalhadores honestos no campo da política. Amigo leitor, o político que você elegeu e ajuda a pagar o salário, pensa e age com vistas ao seu bem, enquanto indivíduo? Ele pensa na construção do espaço público levando em conta a maioria e as minorias? Se a resposta for negativa, infelizmente você escolheu mal o seu político. Na próxima eleição você deve demiti-lo e escolher um trabalhador que seja digno do salário que recebe. Você precisa ficar atento entre o discurso e a prática, pois o seu voto tem consequências que afetam diretamente a vida de muitas pessoas. Nós elegemos políticos para que eles trabalhem em prol de uma sociedade mais justa e igualitária, quando eles pensam somente na próxima eleição e não no bem-estar dos cidadãos, eles precisam ser trocados, pois são maus políticos e maus trabalhadores.

*Gerson Leite de Moraes é professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Presbiteriana Mackenzie

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