O trabalho alienado e a escravidão mental

Maria Inês Vasconcelos*

19 de julho de 2020 | 05h00

Maria Inês Vasconcelos. Foto: Divulgação

O trabalho é concebido como atividade consciente e livre inclusive do ponto de vista constitucional. Como é de se esperar liberdade e trabalho andam sempre juntos, eis que a escravidão acabou e com ela a propriedade sobre a pessoa do trabalhador. Pensar o trabalho, especialmente pelo viés da dignidade da pessoa humana, reconhecendo a importância do seu valor social como elemento fundante da ordem econômica e da ordem social, é uma exigência para quem quer refletir sobre o trabalho da contemporaneidade.

O trabalho livre em tese é uma atividade emancipadora, que permite o uso do livre arbítrio, confere certa autonomia, escolha, poder de decisão, iniciativa e uso da criatividade. Deveria elevar e respeitar os espaços de liberdade do indivíduo. Permitir que o pensamento seja elaborado e conceber espaços para construção de crítica.

Mas há uma máquina, verdadeira indústria, de alienação no trabalho. Alienação (do latim alienatione) designa pessoas que estão alheios a si próprios ou a outrem tornando-se escravos de atividades ou de homens, por questões sociais, ideológicas ou hierárquicas. Está ligada à diminuição da capacidade dos indivíduos em pensarem e agirem por si próprios. Há quem defina a alienação como “a falta de consciência por parte do ser humano de que ele possui um grau de responsabilidade na formação do mundo a seu redor, e vice-versa”.

Para nós, a alienação no trabalho se dá quando este deixa de ter valor e sentido, deixando de pertencer ao trabalhador e tão somente a quem dirige a produção. Alienação seria então um fenômeno no qual o trabalhador é alheio ao resultado do trabalho. É o caso, por exemplo, de quem bate todas as metas traçadas pelo empregador, mas no mês seguinte as tem multiplicada por trezentos por cento. É também a situação daquele que acredita que foi promovido, mas quando vai conferir o contracheque recebe tão somente um cordial “tapinha nas costas”. Pode-se enxergar alienação ainda, no verdadeiro frisson do momento: o sistema de meritocracia.

O sistema de meritocracia é na verdade muitas vezes uma bela fraude. Não há escolha legítima deste líder e muitas vezes o tal “líder” lidera apenas por vontade do gestor, sem nenhuma capacidade, mas é o seu preferido. Líderes como estes, apenas lindos ou queridos, são exemplos verdadeiros do processo alienante e excludente dentro das empresas.

Há também outro tipo de alienação que é o corte da falta de autonomia, muitas vezes até mesmo do pensar, eis que só se permite a realização de atividades rotineiras e repetidamente, sem nenhum espaço para criatividade. Em todos estes casos, o trabalhador é estranho ao produto de sua atividade, que na realidade pertence a outro. Isto tem como consequência que o produto se consolide perante o trabalhador, como “poder independente”.

Pode-se dizer que com a alienação da atividade produtiva, o trabalhador aliena-se também do gênero humano, da sua própria pessoa. A consequência imediata desta alienação do trabalhador da vida genérica, da humanidade, é a alienação do homem pelo homem. Para Marx, que critica a sociedade industrial capitalista, a desumanização dos operários na dinâmica de trabalho era algo brutal. Na divisão social do trabalho os que participam da produção de bens e serviços são excluídos de seus resultados. Assim, pode-se dizer, que na visão marxista o trabalhador faz apenas parte do processo de produção estando alheio ao seu resultado e, por conseguinte do valor agregado.

As práticas de dominação da identidade do trabalhador se assentam na visão em aumentar resultados, potencializar lucros e diminuir custos. É o eterno conflito entre capital e trabalho. Os métodos utilizados para movimentar o trabalhador rumo aos seus fins são pautados numa força objetiva, real, de controle, cooptação e subordinação.

Através da dominação e do uso do poder, com postura de diferentes métodos o patrão consegue manipular emoções e sentimentos do empregado, retirando dele várias capacidades, dentro das situações concretas de trabalho. O alienador é sempre a entidade com poder e autoridade. O poder está alojado no capital e no pagamento dos salários. Os métodos podem ser diferentes, sempre tendo em comum a ideia de domínio sobre as ideias e força de trabalho do trabalhador. Ou seja, não se domina, sem dominar a mente. Ou noutro giro: a alienação é antes de tudo, mental. Com o fim da escravidão saímos da posse do corpo do trabalhador, mas agora estamos caminhando para um novo tipo de posse, a posse do cérebro.

O trabalho está cada vez mais tomado pela tecnologia. Nascem startups como nascem crianças e a moda agora é a subordinação algorítmica, aonde um aplicativo controla pessoas. Ou seja, há muita novidade no campo do trabalho e realmente se enxerga que daqui vinte anos, a inteligência artificial e a robótica estarão dominando o mundo do trabalho. Tudo isso nos faz ver que o trabalho vem sofrendo uma metamorfose acelerada.

A tecnologia tem sido usada para alienar, através de monitoramentos intensos de produção. Com a utilização de learning uma espécie de lavagem cerebral, existem cursos que promovem verdadeira lobotomia.

O homem hoje é livre e não deveria mais trabalhar como escravo. Contudo, novamente se torna prisioneiro do próprio homem. Há sim outro tipo de escravidão muito mais severa, a escravidão mental.

*Maria Inês Vasconcelos, advogada, palestrante, pesquisadora e escritora

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