O título saiu pela culatra

O título saiu pela culatra

Maria Inês Vasconcelos*

07 de julho de 2020 | 08h20

Maria Inês Vasconcelos. Foto: Divulgação

Para ser ministro não é preciso ter títulos é preciso saber administrar e ser moral. Não é preciso nem ser intelectual é preciso saber gerenciar, ter jogo de cintura, capacidade para liderar. O simpático e carismático, Carlos Alberto Decotelli, agora, ex-ministro da Educação, tinha tudo para arrebentar.

O problema todo se assenta no campo da ética e da moral. E  é claro, passa pela falácia do sistema que mede conhecimento por títulos, mas que vigora e é a regra do jogo no metiê acadêmico. Pois bem, o ministro se dizia intelectual, e aqui se abre um parênteses, pois ninguém pode se auto- instituir como tal.

Um intelectual não liga para títulos, ele dedica-se muito mais a uma missão. Uma missão   de cultura, de humanidade e de contribuição, e se neste caminho vierem os louros, inclusive, os títulos, isso ocorre com naturalidade.  Os  saberes nunca estiveram apenas em títulos, malgrado haja um frenesi em torno deles e uma busca desenfreada por esses artificialismos  muitas vezes, só vaidosos e algumas vezes narcísicos.  O mal- estar  que sufoca esta nação é a de saber se o  ministro tinha recursos necessários para atuar na pasta, como ministro da Educação.  Até aí teria, pois parece que é um grande técnico, um líder,  mas , infelizmente foi vítima de um conflito moral.

Apesar de sabermos que metade dos  currículos do mundo são cheios de maquiagem, ninguém sai por aí querendo ser ministro, arrimando-se nesses títulos. O ministro é escolhido pelos seus atributos e não pelos títulos. Mas quando se trata de educação, a coisa muda um pouco de figura.

A discussão passa então para o campo da ética. Reabre-se a caixa de pandora dos títulos e do plágio e reacende a discussão em torno do sistema educacional brasileiro, que mede saberes e competências pelos títulos, arrimado numa grande ilusão e na ideologia da exclusão e compartimentalização do conhecimento. Os donos de títulos, no sistema atual, têm domínio físico, ético e cultural, dos saberes.

Estabeleceu-se no metiê acadêmico verdadeira disputa pelos títulos, porque nós mesmos crivamos este sistema, e o ministro também. Mas há um grande número de intelectuais que não tem título algum e são verdadeiras sumidades. Gente que atua em vários campos dos saberes, com uma bagagem técnica enorme, sem diagnóstico de presunção e narcisismo. Gente que não tem mestrado e nem doutorado, mas que estão mergulhados no conhecimento.  O mundo é cheio de mitos e só se sabe alguma coisa a partir de títulos. Isto não é verdade. É um dos piores erros.

Mas é preciso aqui achar um metaponto, eis que não estamos discutindo se o ministro tem ou não capacidade de saber e compartilhar saberes. A questão está na salvaguarda da ética de  seu propósito. Infelizmente, existe uma arena aonde o homem não pode ser mais do que é. Ainda que ele seja um intelectual poli competente, ele não pode se afastar  da ideia de Justiça, verdade e da moral. O ministro era parte da engrenagem que chancela o sistema que mede conhecimento em títulos. Essa é a regra do seu  jogo. Dessa forma,  não cabe ao ministro que é e sempre fez parte da comunidade que  crivou tais métodos, burlá-lo.  Seria corromper as ideias que o salvaguardaram. Claro , deve ser um grande homem e repito, é uma figura linda, realmente cativante. Mas o  ministro errou  e o título saiu pela culatra.

*Maria Inês Vasconcelos, advogada, palestrante, pesquisadora e escritora.

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