O tesouro estorricado

O tesouro estorricado

José Renato Nalini*

10 de outubro de 2020 | 05h00

José Renato Nalini. FOTO: HELVIO ROMERO/ESTADÃO

É fácil entender a diferença entre o Brasil e países que alcançaram mais cedo a civilização. Pense-se na Inglaterra, por exemplo. Seu Museu de História Natural possui mais de setenta milhões de objetos de todos os domínios da vida e de todos os recônditos do planeta. A cada ano, acrescentam-se outros cem mil itens. É o que se extrai de um livro muito interessante, excelente leitura para tempos de peste: “Breve História de Quase Tudo”, de Bill Bryson. Americano de nascimento, viveu várias décadas na Inglaterra. É ardoroso defensor da cultura britânica e do tesouro amealhado por essa Instituição, o Museu de História Natural.

Uma visita ao local, diz ele, “é um pouco como passear pelo cérebro de Darwin. O “salão dos espíritos” sozinho, abriga 24 quilômetros de prateleiras contendo jarras e jarras de animais preservados em álcool metílico. Há espécimes coletados por Alexandre van Humboldt na Amazônia e pelo próprio Darwin, na viagem do Beagle. Estudiosos dedicados devotam-se a pesquisas que se prolongam por décadas a fio. O professor Norman, por exemplo, passou 42 anos estudando uma única planta: a erva-de-são-joão.

Tudo ali merece estudo e respeito. Imagine-se algo aparentemente tão prosaico e desimportante como os musgos, que até o século XIX eram confundidos com os líquens. Algo que mereceu de Henry S. Conard a observação de que “Talvez nenhum grande grupo de plantas tenha tão poucas utilidades, comerciais ou econômicas, como os musgos”, foi objeto de um livro que o autor escreveu: “Como reconhecer os musgos e as hepáticas”, publicado em 1956, como tentativa de popularizar o assunto.

Pois os musgos são prolíficos: há mais de 10 mil espécies em 700 gêneros. O volumoso livro “Flora de musgos da Grã-Bretanha e da Irlanda”, tem mais de setecentas páginas e ali não se encontra tanto musgo. É algo mais encontrável nos trópicos, nas florestas úmidas. Os sábios têm certeza de que há muitas espécies novas a serem descobertas.

O século XIX foi a época de ouro da coleta de musgos. O inglês George Hunt foi um caçador de musgos britânicos fervoroso e as 780 mil espécimes catalogadas estão prensadas em cartolina dobrada. Acondicionadas em armários imponentes de mogno lustroso, exemplar requintado da movelaria britânica.

A tradição inglesa é muito longeva. Os ingleses têm orgulho de seus jardins públicos e particulares. No século XVIII, colecionar plantas era o hobby predileto dos ingleses. Quem amealhava novidades na flora conseguia fortunas. Independentemente disso, o que motivava os colecionadores era o amor à botânica.

Não eram raras expedições de estudiosos com vistas a recolher amostras de vegetação de lugares longínquos, quase todos sob a égide do “Império onde o sol nunca se põe”. Uma delas foi a patrocinada por Josep Banks, considerado o maior botânico da Inglaterra, com a viagem do Endeavour. Foi a maior expedição botânica da história. Ele pagou dez mil libras, cerca de um milhão de dólares, por essa aventura de três anos ao redor do mundo. Fez-se acompanhar de outras nove pessoas: um naturalista, um secretário, três artistas e quatro serviçais.

Nunca antes, nem depois, um grupo de botânica obteve maiores êxitos. A viagem incluiu a Terra do Fogo, Taiti, Nova Zelândia, Austrália, Nova Guiné e Banks era arguto e inventivo. Não pode desembarcar no Rio de Janeiro, pois a cidade estava – coincidentemente – em quarentena. Mas examinou um fardo de ração enviado para o gado do navio e fez descoberta de uma vegetação minúscula e praticamente escondida.

Nada escapava à sua observação e o resultado foi a coleta de 30 mil espécies de plantas, dentre as quais 1.400 nunca antes vistas. Isso aumentou em um quarto o número de vegetais conhecido no mundo.

Pense-se nesses fatos e coteje-se com o que acontece no Brasil em 2020. Incendeia-se a Amazônia, o Pantanal – incrível que a região alagada seja consumida pelo fogo – a Mata Atlântica, o cerrado e outros biomas.

Nunca mais haverá a oportunidade de sequer chegar a conhecer aquilo que tínhamos, que não só negligenciamos, mas que destruímos. Qual a explicação fornecida a quem se espanta com isso? Responde-se com argumentos pueris e toscos, a invocar uma soberania que só existe como ficção. Basta perguntar para a chuva ácida, para o tráfico de armas, de entorpecente, de pessoas, para as nuvens de gafanhoto ou para as ilhas de pets que circulam pelos mares, se tais elementos respeitam as convenções humanas. Se eles observam as fronteiras e levam em conta os limites territoriais. Tragédia e prejuízo incalculável destruir antes de catalogar. Antes de saber que a bioeconomia e a biomedicina tanto ganhariam com a pesquisa levada a sério. Agora, é dizer como o corvo de Allan Poe: “nunca mais!”.

Nosso tesouro foi estorricado ou esturricado, como queiram. Dá para comparar o afeto britânico pelo verde e o que estamos a mostrar, não só para inglês ver, mas para todo o restante planeta civilizado?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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