O tamanho da crise que vamos encarar

O tamanho da crise que vamos encarar

Emanuel Pessoa*

18 de abril de 2020 | 05h00

Emanuel Pessoa. FOTO: DIVULGAÇÃO

É senso comum na Economia que as crises econômicas podem resultar em curvas de crescimento de três tipos: “V”, “U” e “L”, por ordem de gravidade. Quando estamos diante de um choque econômico em “V”, a demanda sofre uma contração temporária, sem efeitos reais no futuro, sendo seguida por uma rápida expansão e um retorno ao nível de crescimento que se verificava antes da crise.

Assim, as consequências desse tipo de crise são limitadas no tempo ao período em que ela foi experimentada. Estatisticamente, as principais epidemias e pandemias de gripe dos últimos 100 anos levaram a choques econômicos em “V”, inclusive no caso da Gripe Espanhola, que matou mais de 600 mil pessoas apenas nos Estados Unidos e cerca de 50 milhões no mundo todo. Essa também era a expectativa quanto ao novo coronavírus.

Entretanto, o que determina se uma crise econômica seguirá um determinado padrão é o quanto a estrutura da economia será atingida. Na crise em “U”, a economia não retoma o ritmo pré-crise, o que significa que a riqueza que seria criada futuramente foi destruída. Se a crise for em “L”, a destruição de valor futuro é crescente, resultando em uma situação ainda mais dramática.

De acordo com um estudo do Boston Consulting Group, de 18 de março, que, entre outros temas, trata dessas possibilidades geométricas dos choques econômicos, para que a crise adquirisse um formato em “U”, seria necessário que ocorressem tantas mortes que se reduzisse a oferta da mão-de-obra, houvesse um decréscimo do estoque de capital com a queda dos investimentos, e, consequentemente, uma queda da produtividade.

“Para que ocorra o cenário mais grave, de recessão em “L”, a mortalidade deveria se repetir ano a ano, o crédito e o investimento diminuírem continuamente, e ocorrer uma ruptura institucional ou a interrupção dos processos produtivos.

Embora isso não pareça provável, a atual pandemia pode ir além da recessão em “V”, causando uma crise em “U”, especialmente se os trabalhadores e as empresas não forem socorridos a tempo e de forma adequada.

Um outro estudo do BCG, este elaborado pela sua Força Tarefa COVID no Brasil, o estrondoso percentual de 70% (setenta por cento) das famílias nas favelas já perdeu renda. 86% (oitenta e seis por cento) delas passariam fome em até um mês sem renda, sendo que 32% (trinta e dois por cento) poderiam comprar comida somente na primeira semana. Esses números podem ser melhores na classe média, mas são um retrato de como a maior parte dos brasileiros trabalha para viver, não tendo reservas para suportar sequer uma quarentena curta.

O estatístico alemão Ernst Engel criou uma Lei da Economia que leva seu nome, segundo a qual quanto maior a renda de uma pessoa, menor a proporção de sua renda gasta com comida. Portanto, o pouco fôlego financeiro que os brasileiros têm para comprar alimentos na situação atual demonstra que eles têm menos ainda para gastar com outras coisas, revelando uma situação calamitosa para os demais setores da economia.

Se não forem adotadas medidas que garantam uma renda mínima para a massa trabalhadora que se encontra em casa, não teremos, no Brasil, um quadro de demanda reprimida ao final da pandemia, mas de falta de demanda, por impossibilidade pura e simples dos consumidores potenciais de gastarem.

O ciclo seria vicioso. Mais empresas quebrariam, perdendo seus investimentos, e as que sobrevivessem se veriam forçadas a reduzir seus investimentos, o que poderia nos conduzir a uma recessão em “U”, com empobrecimento efetivo da população. A persistir esse quadro, poderíamos cair na recessão em “L”.

Garantindo uma renda mínima para a população, o Governo vai assegurar a demanda tão necessária para a retomada da economia. Embora o coronavoucher não seja suficiente para manter a renda no nível pré-pandemia, ele é um passo importante. Além do imperativo econômico, há uma razão ainda mais importante para o Estado socorrer as pessoas que estão sem renda nesta crise.

Como bem colocado pela antropóloga Margaret Mead, a primeira evidência da civilização é um fêmur quebrado que foi recuperado. Na natureza, quando um animal quebra a pata, ele não consegue buscar alimento nem fugir dos predadores. É uma sentença de morte. O osso recuperado significa que alguém gastou tempo cuidando daquela pessoa, alimentando-a e protegendo-a. Na vida em sociedade, precisamos proteger uns aos outros, especialmente na hora da necessidade.

*Emanuel Pessoa, consultor em Política Econômica Internacional e advogado especialista em Negociação, Contratos, Inovação e Internacionalização de Empresas

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