O sonho de D.Clio

O sonho de D.Clio

José Renato Nalini*

11 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Clio é personagem da mitologia grega, a Musa da História, já mencionada por Hesíodo, ao lado de suas irmãs: Calíope, que preside a poesia épica, Polimnia, à retórica, Euterpe, à música, Terpsícore, à dança, Érato, à lírica coral, Melpômene, à tragédia, Talia, à comédia e Urânia à astronomia.

Mas é Clio, que nos interessa agora. Na verdade, “Dona” Clio de Figueiredo Bartoletti, que este ano chegaria a seu centenário, não tivesse partido em 2014. Professora vocacionada, sua missão foi educar, desde a alfabetização, até às noções mais consistentes e essenciais a que um ser humano seja alguém sensível. Preocupado com as pessoas, com o ambiente, cultor das virtudes e atento às maravilhas da existência.

Clio cuidou de transmitir valores ao filho, Fernando Figueiredo Bartoletti, magistrado zeloso de seus deveres e atuante na vida associativa, que exerce com inexcedível liderança. E chegou a fazê-lo em relação aos netos, Maria Esther e João Rafael.

A semente foi lançada em solo fértil. Fecundou. Foi o confinamento forçado pela pandemia que fez o filho Fernando esmiuçar os guardados da mãe, na biblioteca formada com desvelo durante nove décadas. E ali encontrou contos que Clio escrevera entre 1951 e 1953.

Esse achado levou a família a publicar o primeiro deles, “O sonho de Chiquinho”, uma estória muito gostosa de ler. Meu fervor ecológico se emocionou com a consciência ambiental já desenvolvida, vinte anos antes de que o tema chegasse à agenda nacional.

O personagem Chiquinho é um garoto bem comportado, que almeja ter um “anão de jardim”, para fazer companhia às plantas. Assunto que serviu para a escrita de trechos muito saborosos: “…a natureza não para. Sempre em movimento! Tem plantas mais folhudas, outras mais floridas, um mar de cores sobre o verde da grama. E um desfile de bichos voadores, caminhantes e rastejantes. Alguns, como as formigas, caminham depressa carregando folhas, flores, gravetos, só trabalham e trabalham. Outros, como as borboletas, voam sem pressa, parece sempre que estão de passeio”.

O entretenimento serve também para amealhar considerável vocabulário. Todas as flores merecem específica menção, com os qualificativos que as caracterizam. Sem perceber, o leitor se impregna de um ingrediente de que o Brasil hoje se ressente: o amor pelo ambiente, pela exuberância de nossa biodiversidade.

A sadia e tão negligenciada moral familiar está presente em todo o livro. Como no momento em que a mãe de Chiquinho observa: “As crianças obedientes, que fazem o que seus pais pedem, que ajudam e respeitam os mais velhos, que se preocupam com todas as pessoas, com os bichos e com as plantas e que cuidam das coisas, sempre têm sonhos bonitos!”

Encantador o envolvimento familiar na consecução de uma obra que fora idealizada por D.Clio, mas adiada, até que seus descendentes viessem a se encarregar do projeto.

Fernando tem noção do significado desse resgate: “Mal poderia imaginar a autora que caberia aos netos dela, Maria Esther e João Rafael, participarem da obra, colaborando com as ilustrações. E, assim, todos juntos, conseguimos a proeza de lançar a primeira parte desta obra literária, justamente no ano em que comemoramos o centenário do nascimento da dona Clio”.

Original celebração, que evidencia a têmpera docente das mães que não declinavam de sua responsabilidade e que se encarregavam, como ocorreu com D. Clio, tanto da escolarização formal, pois mestra por opção, quanto do “currículo oculto” que a sapiência materna sabe transmitir por predestinação genética.

O olhar da psicóloga e sobrinha Marlene Ribeiro Bittencourt descreve a D. Clio com quem teve o privilégio de privar: “Mulher forte, de sabedoria intelectual e espiritual elevada, estava sempre disposta a nos ensinar e a tirar nossas dúvidas, não somente sobre a língua portuguesa, como também em outros assuntos”.

Clio deixou herdeira: a neta Maria Esther, que confessa começar a se “aventurar a escrever histórias”, o que a fez apaixonar-se por essa forma de expressão. Paixão inclusive pelo desenho, que enriquece o livro “O sonho de Chiquinho”, primeiro – espera-se! – de uma série.

Mais um benéfico impacto da pandemia. Forneceu a Fernando Figueiredo Bartoletti a oportunidade de concretizar um acalentado sonho de sua mãe, D. Clio! Nada melhor do que essa homenagem para celebrar os cem anos de nascimento de um ser encantador, cujos frutos são testemunho da primeiríssima qualidade que a adornava.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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