O sonho de 1822

O sonho de 1822

José Renato Nalini*

27 de maio de 2022 | 09h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Há duzentos anos, o jovem Príncipe Dom Pedro I tornava o Brasil independente de Portugal. Foi aclamado pelo povo o Defensor Perpétuo de nossa Pátria. A cerimônia de sua coroação, uma liturgia existente na Igreja Católica, a religião oficial do Estado, prevista desde 1596, foi uma consagração.

Havia não só esperança, como certeza de que o Brasil desabrocharia como um Estado promissor. É o que se extrai da homilia proferida por um frade franciscano, durante a solenidade realizada na Catedral do Rio, em 1º de dezembro de 1822.

Instaurava-se a monarquia alicerçada na lei: “tudo nos promete o mais belo futuro, porque nós vamos aparecer no meio das Nações com a lei, que mostrará nossa independência política, e só esta vantagem, de que se não poderia lisonjear nenhum dos antigos Impérios, nos dá antecipadamente um caráter de nobreza, que os nossos inimigos nunca puderam eclipsar”.

Essa nação liberada do jugo português garantiria a segurança individual e coletiva para todos os brasileiros, inclusive no concernente à propriedade, desde que o governo imperial viesse a merecer coesa adesão da cidadania: “não consintamos que o veneno da anarquia se introduza em nosso seio; vossas famílias, vossas riquezas, vossa segurança individual vos pedem que nunca vos esqueçais dos sentimentos de honra e de gratidão, com que vós elevastes o grande Império do Sul da América, oferecendo a coroa a um Príncipe, que renasceu nos braços de nossa Pátria, para ser mais digno do nosso amor e da nossa confiança”.

Os jovens foram conclamados a participar do renascimento da nação, coincidente com o renascimento do monarca aqui nascido: “sim, o grande nome do Imperador Pedro I, Imperador do Brasil, já é grande na ideia dos mesmos meninos, que, não conhecendo ainda o que é a Pátria, nem o que é Constituição, já sabem que o Imperador os há de fazer ditosos, zelar sua instrução, e preparar seus pulsos, não para receberem cadeias, porém para as quebrarem”.

Havia um justificado ufanismo, na convicção de que o Brasil teria condições de dar uma lição a todos os povos da Terra. Ainda recorrendo à homilia proferida na missa de coroação de Pedro I, tem-se que “os brasileiros sejam reservados para mostrarem aos povos da Europa o admirável espetáculo de uma Constituição Monárquica, fazendo-lhes ver ao mesmo tempo uma Nação livre, independente e um Imperador Constitucional. A Europa decidirá se nós fomos bem julgados por aqueles que só nos consideravam próprios para a condição de escravos”.

O orador conclui com uma candente proclamação: “um povo que combate por sua independência é um povo de heróis”.

Será que duzentos anos depois, existe alguma certeza sobre o protagonismo brasileiro diante das nações civilizadas?

A aferição da credibilidade do Brasil no exterior não oferece os melhores índices. A promissora “potência verde” foi convertida em “pária ambiental”. Com razão. A devastação de todos os biomas, principalmente a Amazônia, foi incentivada pelo governo. É só verificar que o pífio orçamento destinado ao meio ambiente, até maio de 2022, não foi executado senão em 14% da modesta previsão orçamentária.

Então, não é só um discurso dendroclasta, de incentivo à grilagem, com a entrega de títulos de propriedade imobiliária sem observância da legislação sobre regularização fundiária, o desmanche das estruturas tutelares da natureza. É muito mais: é o enxugamento das verbas orçamentárias reservadas a esse relevantíssimo tema. Aquele que mais preocupa as nações civilizadas.

Há duzentos anos, a Igreja chamava a juventude para se interessar pela nação, a participar da gestão da coisa pública, a se orgulhar do Brasil. Causaria efeito em 2022 uma conclamação como essa?

Tem a juventude brasileira reais motivos para se vangloriar de uma reputação que foi gravemente vulnerada com a errática visão do que significa hoje uma “independência”?

O Brasil ainda tem tudo para se tornar economicamente independente. É só encarar o que possui de patrimônio ecológico, a venda de créditos de carbono, fumo à descarbonização, que é uma legítima defesa da humanidade.

Será que alguém se disporá a abrir os olhos insensatos dos que desperdiçam nosso tesouro em biodiversidade, celeremente exterminado antes mesmo de ser adequadamente conhecido pela ciência?

Mais importante do que celebrar os 200 anos da Independência, é refletir sobre o que aconteceu nestes dois séculos e qual será o futuro desta terra tão abençoada, quanto devastada.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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