O shale brasileiro

Luiz Felipe Coutinho*

26 de agosto de 2021 | 03h15

“O desenvolvimento do shale gas foi um dos maiores, se não o maior, progresso da economia americana após a grande recessão”. A frase foi dita por Ben Bernanke, em uma análise em perspectiva de seu período como presidente do FED, banco central americano, no período de 2006 a 2014, grande parte após a grande crise causada pela quebra do mercado imobiliário.

Indiscutivelmente, a exploração das reservas de petróleo e gás natural de folhelho foram decisivas para a retomada econômica dos Estados Unidos. Apesar de não termos, no Brasil, um evento traumático como o estouro da bolha imobiliária, é fato que vivenciamos mais uma década perdida em termos econômicos, com baixo crescimento, períodos de recessão e alta taxa de desemprego. Daí vale refletir se o desinvestimento feito pela Petrobras poderia proporcionar à economia brasileira efeito similar ao desempenhado pelo gás de folhelho nos Estados Unidos.

Dificilmente enxergaremos na economia e geopolítica brasileiras impacto tão profundo quanto o provocado pela revolução do gás de folhelho nos Estados Unidos. Entretanto, em razão de sua longa e diversa cadeia de suprimentos, podemos ter no desinvestimento da Petrobras a oportunidade de destravar o crescimento econômico há tanto tempo estancado em meio a problemas estruturais.

O primeiro e mais óbvio impacto está na retomada de investimentos do setor. Percebemos que, diretamente correlacionado ao baixo crescimento econômico do país, tivemos a redução dos investimentos realizados pela Petrobras: se, em 2009, a petroleira respondia por 11,1% de todos os investimentos realizados na economia brasileira, em 2020, este percentual caiu para 3,8%.

Claro que são muitos os fatores que contribuíram para esta significativa redução: o alto endividamento da companhia e a ampla divulgação de casos de corrupção talvez sejam os principais. No entanto, é preciso ponderar que a concentração de investimentos de uma área estratégica e extremamente intensiva em capital, como é o setor energético, em uma única companhia, não é um risco recomendável de se correr considerando o desenvolvimento econômico de uma nação. Não obstante, no caso das operações em campos terrestres, esta distorção é ainda mais grave, em razão principalmente do perfil de investimentos descasado com ativos de grande potencial em mar priorizados pela companhia. A consequência foi uma redução superior a 30% da produção de petróleo e gás terrestre na última década, com impacto direto na geração de empregos e na arrecadação municipal, em regiões extremamente dependentes desses recursos. A cessão desses ativos a companhias com foco em exploração e produção em terra terá sobre essas regiões um impacto positivo similar ao registrado por produtoras independentes de shale gas em áreas de concessão relegadas pelas grandes companhias petrolíferas nos Estados Unidos.

Outra expectativa positiva acerca dos desinvestimentos da Petrobras é sobre seu potencial impacto na geração de energia elétrica e na segurança do sistema nacional. Sabemos, como brasileiros, da vocação do país para geração renovável, cada vez mais dominante em nossa matriz. Contudo, as particularidades desse tipo de geração, como eólica e solar, demandam interfaces para maximizar a segurança que o sistema energético nacional precisa com custos que não impactem negativamente a competitividade do país.

A Petrobras tem em seu pipeline de vendas não apenas campos de produção, mas também uma rede de dutos, termoelétricas e unidades de processamento de gás natural que podem proporcionar uma maior presença da geração elétrica por este combustível, proporcionando a segurança que o país precisa para uma transição para uma matriz mais limpa, com capacidade de sustentar os picos de demanda de energia em períodos de alto crescimento econômico, ou de crises hídricas como a atual evitando alternativas mais poluentes e de alto custo para a sociedade.

Seguindo o nosso paralelo, a revolução do shale proporcionou uma mudança de perfil na matriz energética americana, antes baseada em 50% no carvão, combustível dos mais poluentes, e 17% no gás natural, para um outro quadro, com 24% de carvão e 38% de gás natural, assegurando o crescimento na última década, por meio de um combustível mais limpo.

Por fim, gostaria de ressaltar o potencial de redução dos custos de energia, impactando a competitividade de nossa indústria. Nas últimas décadas, apesar da pujança observada na indústria agropecuária, vivenciamos um processo de desindustrialização de nossa economia. Uma das principais causas deste fenômeno é o alto custo da energia no país, com a nossa indústria pagando três vezes o preço da molécula de gás natural, em comparação com outros países como, por exemplo, o México, de onde atualmente importamos grande parte de nossos veículos.

Se parte desse custo tem como origem o complexo arcabouço regulatório e tributário do país, outra parte mais relevante se deve à ineficiência provocada pelo monopólio da cadeia, antes das mudanças provocadas pela política de desinvestimento da Petrobras e pelo novo marco legal do gás natural.

Um mercado de gás natural competitivo, proporcionado por uma cadeia de fornecimento independente, poderia aqui, como nos EUA, evitar uma grande evasão industrial do país, através da redução do custo energético. Não sei se é otimismo exagerado pensar que o desinvestimento da Petrobras e a abertura do mercado de gás podem espelhar, no Brasil, o fenômeno decorrente do shale gas e seus impactos na economia americana, como destacou Ben Bernanke em sua fala. Mas parece-me um comparativo óbvio demais para ser ignorado. Fica a reflexão.

*Luiz Felipe Coutinho é CEO da Origem Energia

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