O sertão virou mar?

O sertão virou mar?

Rafael Barbosa*

02 de outubro de 2020 | 04h15

Rafael Barbosa. FOTO: DIVULGAÇÃO

Como diria a profética frase atribuída ao fundador de Canudos, Antônio Conselheiro, “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. A pandemia transformou o mar de gente que circulava nas movimentadas ruas dos centros urbanos e empresariais do Brasil em sertão. À medida que o trabalho passou a ser remoto e boa parte das pessoas se recolheram em suas casas, ruas ficaram vazias como as do agreste. Ao mesmo tempo, o “sertão” começou a conhecer novas floradas e pessoas que antes viviam e trabalhavam nas grandes cidades já começaram a ter oportunidade de mudar suas rotinas e moradias em direção ao interior do Brasil.

Após seis meses no país, a pandemia abriu espaço para o crescimento do trabalho remoto, que representa uma nova conjuntura econômica cujos impactos ultrapassam a esfera da relação entre empresas e colaboradores e atingem a economia e a sociedade em geral. Neste atual momento de aparente estabilização da Covid-19, o home office já é uma realidade no Brasil, com cerca de 8,4 milhões de trabalhadores atuando nessa modalidade em julho no país. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid-19, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que vem monitorando os impactos da pandemia no mercado de trabalho brasileiro.

As vantagens dessa modalidade já foram divulgadas à exaustão: maior flexibilidade de horários; economia no tempo de deslocamento; redução de custos para as empresas e os funcionários; aumento de produtividade, qualidade de vida, conforto e bem-estar; entre outros. Neste ponto, é importante darmos um passo à frente e refletirmos sobre os impactos de médio e longo prazo que a adoção desse modelo pode reservar à economia e ao desenvolvimento do país.

O home office jogou luz sobre questões sensíveis como a desigualdade social. O mesmo estudo do IBGE mostrou também que mais da metade dos trabalhadores remotos no país (4,9 dos 8,4 milhões) está no Sudeste, região que concentra o maior número de profissionais com alta escolaridade. E a desigualdade exposta pela pandemia atua em nível global: a vencedora do Prêmio Nobel de Economia do ano passado, Esther Duflo, alertou recentemente que as classes mais pobres são mais afetadas pela pandemia em relação às classes mais altas uma vez que não possuem, no geral, acesso a home office e saúde de qualidade, tendo que se expor ao vírus para manterem os seus empregos.

Nesse ponto, a adoção do trabalho remoto deve ser repensada pelas empresas de modo a abranger não apenas classes profissionais específicas, mas outras áreas em que essa modalidade seja possível, de modo a torná-la um instrumento de impacto social, descentralização da renda e até uma possível melhora na sua distribuição. Isso é absolutamente factível, desde que empregadores entendam o poder que têm de apoiar o país a se desenvolver de forma mais justa e igualitária.

Nesses meses de isolamento social foi possível conhecer histórias de profissionais, como atendentes de telefonia e de funções administrativas, sem formação específica, que conseguiram trabalhar bem remotamente de suas casas ou até mesmo do interior do Norte ou Nordeste, de onde saíram na juventude para buscar oportunidades melhores em São Paulo, por exemplo. Foi uma oportunidade de ficar perto da família e se reconectar com suas raízes. Mas será que com a retomada das atividades presenciais, essas pessoas não poderiam ter a opção de continuar em home office no local onde for melhor para elas, ganhando o mesmo salário que ganham em São Paulo e, desta forma, aumentar não apenas seu bem-estar e qualidade de vida, mas também seu poder de compra?

O impacto de termos pessoas ganhando salários dos grandes centros urbanos em cidades do interior do país é uma potência. Este processo de descentralização da renda, levando parte da massa salarial concentrada na cidade para o interior e para capitais diversas do Brasil, pode fazer com que parcela significativa desta renda seja, portanto, destinada ao consumo de serviços locais, ou mesmo produção regional de alimentos e outras necessidades. O efeito multiplicador da alocação de parte desta renda diretamente a um produtor local, por exemplo, ao invés de em uma grande rede de supermercado é muito maior e pode contribuir sobremaneira para a melhoria da renda de populações historicamente distantes da circulação de riqueza advinda dos grandes centros.

Portanto, o trabalho remoto pode contribuir com uma melhor distribuição de renda e desconcentração da mão de obra qualificada, ampliando sobremaneira o alcance do mercado de trabalho, tanto para quem recruta quanto para quem é recrutado. Sem falar na grande massa trabalhadora do Sudeste que vive nas periferias e gasta, em média, quatro horas para ir e voltar do trabalho. São horas preciosas que poderiam ser usadas para descansar, desfrutar da família, se especializar, praticar alguma atividade física e ter tempo para o lazer. Coisas hoje impensáveis para milhares de trabalhadores.

A maior flexibilização da moradia pode se desdobrar na migração de colaboradores para as suas cidades de origem, sobretudo do Sudeste para outras regiões como Norte e Nordeste. Se no século passado hordas de trabalhadores migravam para o eixo Rio-São Paulo atrás de oportunidades e melhores condições de trabalho, o movimento inverso – que já teve início nas últimas décadas — já foi percebido durante a pandemia. Resta saber se ele será temporário ou se pode se transformar em uma política empresarial consciente.

Com o seu amplo poder transformador, ele se revelou sozinho um catalisador de mudanças sociais cujos impactos socioeconômicos já vêm sendo notados e têm a possibilidade de se consolidar ainda mais no médio e longo prazo. Para que isso aconteça é preciso que empresários e executivos do mercado entendam que se cada um estabelecer dinâmicas como essas em suas companhias, podemos construir, a partir daí, um Brasil onde os sertões estejam menos áridos e mais irrigados e os mares menos populosos e bravios.

*Rafael Barbosa é mestre em economia e CEO da Bionexo

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.