O sentido do momento: ‘quando me dei conta, vivia em uma pandemia’

O sentido do momento: ‘quando me dei conta, vivia em uma pandemia’

Maria Helena Budal da Silva*

08 de novembro de 2020 | 16h00

Maria Helena Budal da Silva. FOTO: DIVULGAÇÃO

Fomos pegos de surpresa. De repente, a rotina não podia ser mais a mesma, os planos não poderiam ser mais os mesmos, o ontem seria realmente um passado cada vez mais distante e que a cada dia teria mais sabor de saudade. Rapidamente, exigiu-se que todos vivêssemos em uma incógnita diária. O que ocorrerá amanhã? Quanto tempo tudo isso irá durar? Independentemente do querer, tivemos que encarar a vida e a morte – as nossas e as de outros.

Sempre nos veremos em situações inesperadas, sem repertório e sem perspectiva clara de futuro. Cada situação trará sua peculiaridade, seu peso e sua dádiva. Qual será a melhor saída para o momento? Esta será uma pergunta recorrente.

Encontrar respostas exige uma parada, exige uma observação, próxima e distanciada, voltada à interioridade, ao mundo externo e às relações postas e inalienáveis entre estes. As respostas exigem um aguçamento da consciência.

Para Viktor Frankl (1905-1997), neuropsiquiatra vienense, a consciência (Gewissen) é o “órgão do sentido”. Ela pode nos guiar, iluminando possibilidades e oportunidades de realizações diante de nós, no presente. Segundo Frankl (2017), a consciência humana é capaz de captar uma realidade essencial, muitas vezes incompreensível racionalmente que aponta, pessoalmente, para a realização de atos concretos.

Quando estamos presentes e abertos ao momento, atentos às oportunidades, respondendo sobre elas, temos a liberdade de concretizá-las ou não. Ao mesmo tempo, porém, tornamo-nos responsáveis sobre o que decidimos, conscientemente ou não.

Talvez esse seja um oportuno referencial para as decisões na vida humana, sobretudo em situações de sofrimento – o que o momento revela e o que reserva a mim… Quem sabe aí esteja o sentido do momento. Cada situação envolve alguém, diante de algo, em um tempo específico. O que não for realizado agora não poderá mais ser concretizado, pois em outro tempo esta pessoa e situação não mais existirão. Assim, o sentido deste momento se perderá; será uma possibilidade passada, e não mais em uma realidade.

Mesmo quando permitimos a passagem de uma oportunidade de sentido, uma nova situação irá surgir e outro sentido será apontado, aguardando de nós uma nova posição, uma realização. O sentido é dinâmico, é situacional, aparece como fruto da relação do “Ser com o Mundo” e surge em nossa consciência, podendo nos guiar – não sobre o que “queremos ser ou fazer”, mas sobre o que “devemos ser e fazer”. Frankl (2011), aponta nas possibilidades de “vir a ser” não o que esperamos da vida como humanos, mas o que a vida espera de nossa humanidade.

A existência, em seu movimento, convida-nos a oportunidades de concretização, que carregam em si certa exigência, pois são convites pessoais, que envolvem “Eu na Situação”. Cada concretização trará a vivência de um sentido. O que antes era um adiantamento, uma intuição, uma visão, um convite, agora poderá ser uma realidade, uma presença na vida ligada a algo que a justifica, que a realiza, que a confere sentido.

A vida nos traz tarefas de diferentes ordens. Não será possível mudar tudo, mas sempre será possível mudar algo – ou mudar algo em nós. Então, neste momento, o que a vida lhe pede para ser concretizado? Qual é o sentido que o momento revela? Terá a coragem de ser digno de sua realização?

*Maria Helena Budal da Silva, psicóloga, logoterapeuta e professora do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)

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