O segredo da vida contemplativa

O segredo da vida contemplativa

José Renato Nalini*

02 de abril de 2021 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Mais de um ano de confinamento, tudo mostrando que teremos meio milhão de mortos dentro em pouco, a guerra de narrativas, o raivômetro a funcionar, talvez um dos remédios seja a meditação.

Não é fácil propor ao habitante do planeta Terra neste tenebroso 2021, que se recolha a si mesmo, passe a refletir sobre os mistérios da existência, sobre o que ainda lhe está reservado no decorrer do tempo que lhe resta e faça elucubrações sobre o que acontecerá depois.

A nossa era é febricitante em suas requisições exaurientes da paciência e da tranquilidade dos humanos. Problemas, dificuldades, vicissitudes, incerteza, insegurança, pavor e pânico. De tudo um pouco. Não há condições do encontro de alguém consigo mesmo.

Mas é preciso recorrer a quem soube fazer de sua experiência vital um poço de tranquilidade. Terminei de ler, neste clima de pandemia, um livro fabuloso: “A montanha dos sete patamares”, de Thomas Merton. Esse francês, filho de pai neozelandês – artista plástico – e de uma norte-americana, viveu de 1915 a 1968. Aos vinte e três anos, converteu-se ao catolicismo e tornou-se monge trapista. Uma das ordens mais antigas e austeras da Igreja.

Já escrevera romances, poemas e peças teatrais. Continuou a escrever, por ordem de seus superiores. Sua autobiografia inspira quem não encontra oportunidade de fazer exame de consciência e de tentar abrir diálogo com o Criador.

Antes de ingressar no Convento Trapista de Getsêmani, no Kentucky, Estados Unidos, ele pensou em ser franciscano, cartuxo ou beneditino. Pensou se uma vida contemplativa seria tão rica ou proveitosa do que uma profissão religiosa ativa. Decidiu-se pela trapa, ao convencer-se de que “em qualquer espécie de ordem religiosa não somente existe a possibilidade, como também em certo sentido a obrigação, até certo ponto, de levar a mais alta de todas as vidas, a de contemplação e de fazer os outros partilharem de seus frutos”.

Uma de suas influências foi Santa Teresinha do Menino Jesus, que viveu vinte e quatro anos, reclusa no Carmelo de Lisieux e que foi considerada Doutora da Igreja, pois o seu papel na conversão das almas pode se equiparar ao missionário São Francisco Xavier.

Thomas Merton profere uma lição para a santidade: para ele, na prática, existe apenas uma vocação: “Quer se ensine ou se viva no claustro ou tratando dos enfermos, quer se esteja na vida religiosa ou fora dela, quer se seja casado ou solteiro, quer se seja importante ou anônimo, se é chamado para o ápice da perfeição, se é chamado para uma vida interior profunda, por certo até mesmo para a oração mística e para divulgar e transmitir aos outros os frutos da contemplação. E não se podendo agir assim pela palavra, que se faça pelo exemplo”.

Como é significativo constatar que em pleno século XX, um período em que a humanidade enfrentou dois conflitos mundiais, ambos cruentos e terríveis, homens e mulheres continuaram a viver uma vida de reclusão e de silêncio, fazendo do trabalho uma oração e da oração o mister da maior parte de seus dias.

Merton diz que o amor é a mola propulsora da preservação da vida no mundo. Ele fala de um amor transcendente, que liga a criatura ao Criador. Mas sua afirmativa pode valer para o amor que se conhece bem no convívio humano e que é o sentimento que vincula pais a filhos, filhos a pais, maridos a mulheres, aquele cimento que solidifica as relações e que faz a caminhada terrena valer a pena.

Deus é amor, como diz São Paulo na epístola que é conhecida como um verdadeiro hino ao amor, ali chamado caridade. E Merton vivenciou esse amor no seu recolhimento conventual. Um amor que, alimentado de forma adequada, muda o sol e as demais estrelas. Pois “esse fogo sublime do amor infuso arde em nossa alma, exercerá inevitavelmente através da Igreja e do mundo uma influência tão formidável que não poderá ser avaliada pelo alcance das palavras ou do exemplo. São João da Cruz escreve: ‘uma pequena quantidade desse amor puro é mais preciosa aos olhos de Deus e de maior proveito para a Igreja do que todas as outras obras reunidas, mesmo que pareça a alma não estar fazendo nada”.

Será que uma centelha desse amor não seria um remédio miraculoso para uma raça machucada pela peste, descrente nos poderes materiais, desanimada com tanto sofrimento, desesperançada ante a falta de perspectivas? É algo difícil, mas não impossível. Todos já experimentaram ao menos uma vez a potência transformadora do amor. Sem ele, não vale a pena existir.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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