O sapato que temos e os passos que damos

O sapato que temos e os passos que damos

Fernanda Zacharewicz*

24 de junho de 2021 | 04h30

Fernanda Zacharewicz. FOTO: FÁBIO MUNIZ

Anos atrás, conheci o Grand Cannyon, nos EUA. Era a primeira semana de janeiro, em um inverno considerado bastante rigoroso. Uns dias antes me avisaram: se prepara, no deserto é frio. Tudo bem, eu sabia que no deserto as temperaturas são bem baixas, mas todas as imagens gravadas em mim desse destino específico eram ensolaradas, e o sol coloria a paisagem com um tom vermelho que mesclava céu e terra em alguns pontos. Estava convencida, era isso que encontraria e ponto.

O que encontrei foi completamente diferente do que eu havia imaginado. Meus olhos se admiraram diante de uma paisagem azul e branca. Nevava constantemente, os cumes cobertos pelos flocos brancos se elevavam desde o abismo sem fim, cujo fundo não era possível entrever. Entre as trilhas e o abismo não havia cerca. Manter-se ali, viva, em pé dependeria de meus próprios passos, não havia onde se apoiar.

Logo no primeiro dia, minha bota de neve perdeu a sola e ficou inutilizada. Nos vários dias que se seguiram, meu único calçado era um tênis de corrida. A neve molharia meus pés e os congelaria. O jeito era remediar alternando as diversas meias térmicas coletadas entre todos os que me acompanhavam.

Em uma manhã, encasquetei que veria o nascer do sol. Acordei as crianças de madrugada e, ainda escuro, com os estômagos vazios, coloquei todo mundo para a andar a -20ºC. Voltaríamos a tempo para o café da manhã, se eu tivesse acertado o caminho que constava no mapa… Seguimos em direção oposta, a escuridão se fez dia, os animais apareceram na trilha. Conseguimos voltar já de tarde, famintos e com um compêndio de belas histórias.

Como para a imensa maioria de nós, os últimos tempos têm sido encontrar-me com o que nunca havia passado pela cabeça, usando calçados pouco apropriados. Morei na mesma casa durante 13 anos e nunca havia planejado sair de lá. Na pandemia, mudei muitas vezes. Somente agora, na quinta mudança, percebi que estava novamente diante da imensidão do que foi, para mim, o Grand Cannyon. As possibilidades que se abriam a perder de vista, mas que somente se tornam vivências se me ponho a andar. Não tem jeito, sempre andamos ao lado do abismo sem cerca. Como sujeitos, perdemos a sola da bota logo no início de nossa existência, os sapatos serão sempre aqueles disponíveis, o mapa sempre será lido desde a singularidade de cada um…

A esperada paisagem que almejamos sempre difere da que encontramos. Ela é sempre outra. É sempre a que se tem, e é por ela que caminhamos. Sempre despreparados, seguimos avançando, o abismo não assusta mais. A neve que encharcava os pés é também a que agora conforta o olhar, que cobre a paisagem de uma brancura marcada pelas pegadas daquele que tem a certeza de seus passos rumarem à primavera.

Nos últimos dias, minhas lembranças retornam àquela manhã, retornam ao humor com que encaro o novo, ao calor do meu corpo que me sustentava ao caminhar. Retorno ao Eros que me fazia seguir e admirar o fato de que tanto a paisagem quanto eu nos modificávamos a cada passo e, aos poucos, a escuridão ia se desfazendo. A cada mudança, mesmo de pés molhados, é tempo de escrever na memória as histórias da vida, sabendo que o que temos para hoje é sempre diferente do imaginado e, a cada passo, podemos fazer disso o belo. E basta.

*Fernanda Zacharewicz, psicanalista. Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP e editora na Aller

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