O sagrado e o profano no STF

O sagrado e o profano no STF

Flavio Goldberg*

18 de setembro de 2020 | 08h05

Flavio Goldberg. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

“O Brasil não é para principiantes” parece que o folclore imita a percepção sensível de que nos entende não de cátedra privilegiada em Paris, mas do ruído carnal das ruas que palpitam numa potência complexa, dum cosmopolitismo colorido que vai da tradição à revolução, num salto qualitativo.

Eis que temos numa coincidência significativa na presidência do Supremo Tribunal Federal, um jurista carioca despachando capaz duma frase provocativa que intriga e perturba, “mato no peito”, de religião judaica, Luiz Fux, filho de Mendel Wolf Fux e Lucy Luchnisky Fux, judeus de origem romena, exilados pela Segunda Guerra Mundial, que termina seu discurso de posse numa afirmação mística, em hebraico “Baruch haschem”, como jamais se fez depois da queda do templo de Jerusalém e no Senado, outro judeu praticante, Davi Alcolumbre, descendente de marroquinos.

Se isto reflete um caleidoscópio gênero de filme à Hollywood, podemos apimentar com o presidente da República, católico, achegado ao poderoso movimento evangélico que pleiteia para o retro referido STF um fiel “bíblia”, como o eleitorado apelida os praticantes do protestantismo nas vertentes de toda natureza que se espalham pelas periferias das megalópoles brasileiras anunciando um conservadorismo como resistência ao tráfico e ao crime organizado.

Religião, ideologia, politica, ascetismo, puritanismo, corrupção, bandidagem, enfim a “sociedade líquida”, instruída por Zygmunt Bauman, tendo como pano de fundo a trilha sonora de Fagner e um cantor a gênero gospel entoando música-oração em hebraico.

Num salto cronológico de poucos anos quando o presidente Lula visitou o Estado de Israel se recusou a reverenciar a memória do idealizador sionista Theodor Herzl cometendo uma gafe diplomática de caráter preconceituosa que transbordava de uma política maniqueísta do Itamaraty preso a dogmas que a queda de Muro de Berlim já havia enterrado.

Certamente, este é um Brasil que o mundo vai aprender a ouvir, respeitar, dialogar, sem o euro centrismo hipócrita dum continente que pretende ditar ao mundo seus valores encerrados nos caisões de guerras e destruições em nome de civilização, cultura, superioridade desmoralizada.

Pois enfim é disto que se trata, à moda caipira, rústica, corajosa, genuína, singular, mas poderosa, o que surge é o desenho de novas configurações que fogem aos modelos engessados dos “sepulcros caiados de branco”.

Esta é a resposta nacionalista mas não chauvinista à bipolaridade que racha a identidade dos povos: judeus, cristãos, mulçumanos, candomblé, umbanda, quimbanda, LGBT, negros, brancos, amarelos, verdes, tudo junto e misturado, um Brasil que se descobre e se desnuda, sem discriminação, e assim um Estado laico, com a sacralidade profana do “humano, excessivamente, humano”.

*Flavio Goldberg, advogado e mestre em Direito

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoSTF [Supremo Tribunal Federal]

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.