O rombo no BNDES com as obras no exterior – parte 6

Jonas Gomes da Silva*

15 Agosto 2017 | 14h00

O artigo foca em 26 obras financiadas pelo BNDES na América do Sul, apontando o suposto valor total estimado em propinas, usando 3 cenários: O Otimista com 1% sobre o valor do contrato (assumindo que apenas o PT tenha praticado o ato), o Realista com 5% (PT+PMDB+Outros) e o Pessimista com 10%, assumindo que agentes corruptos dos países sede da obra também subtraíram recursos. Os valores foram fixados a partir dos relatos dos executivos da Andrade Gutierrez (AG), Odebrecht (Od) e JBS.

Os dados foram obtidos desde 2015 via: a) Planilha “Contratações referentes a desembolsos no apoio à exportação pelo BNDES Pós Embarque (Contratações entre 1998 e 2014)”; b) Relatório de Auditoria do TCU, realizada no BNDES e apresentado em 2016 (Doc. AC-1413-19/16-P, contratações entre 2005 e 2014); c) Relatório do IPEA publicado em 2017 (Financiamento do BNDES para Obras e Serviços de Empresas, período de 2002 a 2016) d) MPF; e) Estadão, Globo, Folha, Valor Econômico, Época, Congresso em Foco; f) SPOTINIKS.

Na pesquisa, focamos apenas as obras executadas por empreiteiras que subtraíram a Petrobras. Ao analisar essas fontes, encontramos dados de 91 empreendimentos, dos quais 26 (28,6%) localizam-se na América do Sul, conforme descrito abaixo:

1.º) Seis países foram beneficiados: Argentina, Bolívia, Equador, Peru, Uruguai e Venezuela. Outros podem ter recebido financiamento, mas não encontramos dados suficientes sobre as obras;

2.º) A maioria das obras está na Argentina, com 9 obras financiadas, representando 35% das obras que estão na América do Sul e perto de 10% do total das 91 obras. O volume de financiamento delas somaria hoje perto de US$ 4.369.567.657,00 bilhões. As construtoras responsáveis são: a Camargo Correa com uma obra (11,1 %), a OAS com uma obra (11,1%), a Queiroz Galvão com 2 obras (22,2%) e a Odebrecht com 6 obras (66,6%). É intrigante ver que o % de obras da Odebrecht na Argentina é tecnicamente similar ao % de obras identificado em Angola (65,79%), país que mais recebeu obras na África. Segundo matéria publicada pelo o Jornal O Globo no dia 01.08.17, o Ex-vice-presidente para América Latina e Angola da Odebrecht, Luiz Mameri delatou que funcionários do Ministério do Planejamento e da estatal Água e Saneamento Argentino (Aysa) receberam US$ 14 milhões para que a Odebrecht ganhasse a licitação do projeto Água Potável Paraná de las Palmas, de limpeza de água para consumo humano, na capital. Além dele, Marcelo Odebrecht também delatou o pagamento de US$ 20 milhões para funcionários públicos da Argentina para a empresa vencer o Consórcio da bilionária Obra de Soterramento da Ferrovia Sarmiento.

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2.º) A Venezuela teve 8 obras financiadas somando perto de US$ 4.185.644.762,00 bilhões, foi o 2º país em quantidade de obras e volume de financiamento. As construtoras são: a Andrade Gutierrez com 2 obras (25%), a Camargo Correa com uma obra (12,25 %) e a Odebrecht com 5 obras (62,5%). Não demorará para a sociedade saber da delação dos executivos da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo e Flávio Machado, bem como da Odebrecht, em especial de Euzenando Prazeres de Azevedo, diretor da Odebrecht para a Venezuela que se tornou muito próximo de Hugo Chaves. A delação deste último será bombástica para muitos políticos Venezuelanos.

3.º) Em seguida temos o Peru com 4 obras que totalizam US$ 895.065.191,00 milhõesexecutadas pela Odebrecht. Além disso, identificamos 3 obras no Equador que somam perto de US$ 470.197.110,00 milhões, uma na Bolívia no valor de US$ 199 milhões, executada pela Queiroz Galvão e uma no Uruguai no valor de US$ 300 milhões executada pela OAS.

4.º) Na América do Sul, o menor valor encontrado foi de US$ 50.083.248,00 Milhões, enquanto que o maior valor foi de US$ 1,5 bilhão referente ao Soterramento do FerroCarril Sarmiento, executada pela Odebrecht, ambas na Argentina. O valor médio das 26 obras foi de R$ 1.248.333.221,26 bilhão, enquanto que a mediana foi de R$ 965.650.000,00 Milhões.

6.º) Aplicando os cenários sugeridos, há a possibilidade de ter sido desviado em valores totais dessas 26 obras: No Cenário Otimista = R$ 324.566.637,53 Milhões; No Cenário Realista = Desvio de R$ 1.622.833.187,64 Bilhão; e no Cenário Pessimista = Desvio de R$ 3.245.666.375,28 Bilhões.

Por último, convido o (a): 1.º) a acessar o site da ONG Transparência Internacional para constatar que em 2016 a percepção da população de cada um destes países com a corrupção é bem pior (Com exceção do Uruguai=21.º) do que a sentida no Brasil (76.º lugar): Argentina (95.º), Peru (101.º), Bolívia (113.º), Equador (120.º), Venezuela (166.º); 2.º) a acompanhar as delações dos executivos da Odebrecht: Marcelo Odebrecht, Luiz Mameri, Jorge Barata, José Conceição Filho, Luis Alberto Weyll, Rircardo Boleiro, Rogério de Araújo, etc, pois eles têm muito a revelar sobre as ilicitudes nestes países vizinhos.

*Dr. Em Eng. de Produção e Prof. da UFAM. Foi pesquisador no Japão apoiado pelo Governo Japonês entre 1997 e 2003. E-mail: gomesjonas@hotmail.com

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