O risco do efeito Dunning-Kruger nos profissionais do Direito

O risco do efeito Dunning-Kruger nos profissionais do Direito

Bruno Pedro Bom*

21 de agosto de 2021 | 09h00

Bruno Pedro Bom. FOTO: DIVULGAÇÃO

Vivenciamos a era da informação, onde basta procurar no Google e “pronto!”, o assunto aparece instantaneamente. A partir deste “modelo de especialização”, as pessoas acreditam que possuem grande conhecimento sobre um determinado assunto, contundo, com enorme superficialidade.

O “Efeito Dunning-Kruger” é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros que conhecem bem mais sobre a área, fazendo-os tomar decisões erradas e chegar a resultados desastrosos.

A própria incompetência restringe estas pessoas da habilidade de reconhecer os próprios erros.

Estas pessoas sofrem de superioridade ilusória.

Essa percepção ilusória de superioridade foi demonstrada numa série de experiências realizadas por Justin Kruger e David Dunning na Universidade de Cornell que avaliaram habilidades tão distintas como compreensão de leitura, operação de veículos motorizados e jogo xadrez ou tênis, e constataram, que a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento, e claro, isso pode se aplicar também aos operadores do Direito.

Dunning e Kruger propuseram que em relação a uma determinada habilidade, as pessoas incompetentes irão fracassar em reconhecer:

  1. Sua própria falta de habilidade;
  2. As habilidades genuínas em outras pessoas;
  3. A extensão de sua própria incompetência;
  4. Sua própria falta de habilidade depois que forem treinadas em um determinado tema.

Casos típicos são profissionais que acabaram de sair da academia, nunca vivenciaram, por exemplo, a rotina da operação do Direito e seus meandros, mas em posse de um diploma recém-conquistado acreditam serem detentores de conhecimento igual ou superior a profissionais que já estudaram muito mais e que estão há anos no mercado de trabalho. Isso é um problema, pois fecha as possibilidades destes acadêmicos aprenderem com quem tem mais experiência, conhecimento e know-how, como na parábola do monge com a xícara de chá:

Monge – “Sirva o chá!”

Discípulo – “Mas a sua xícara já está cheia!”

O mestre impávido, confirma – “Sim, mas por favor, coloque mais chá em minha xícara!”

Nova argumentação do discípulo, nova confirmação do mestre.

O chá começa a transbordar, e o discípulo para.

O mestre insiste em sua solicitação: que ele continue a colocar chá em sua xícara. O chá então escorre ao chão. O bule fica completamente vazio.

O mestre, então, responde: “Para caber mais chá na xícara, a xícara precisa estar um pouco vazia. Em xícara cheia não cabe mais chá.”

Não desmerecendo o entusiasmo dos recém-formados, mas cabe a reflexão. O efeito Dunning-Kruger pode ocorrer com qualquer um, inclusive com profissionais com mais bagagem que se tornam intelectualmente arrogantes, e por vezes em temas que desconhecem, pois ninguém domina todos os assuntos com pleno domínio.

O texto trata sobre profissionais que têm a falsa ilusão de superioridade, por acharem que detém expertise num assunto após conquistarem um diploma ou assistirem um vídeo na internet, pois apesar destes recursos serem ótimos introdutórios para despertar conhecimento, são insuficientes para dominar o conhecimento profundo de uma determinar área na sua prática/

Algumas sugestões para evitar os efeitos Dunning-Kruger no Direito:

– Tenha e escute seus mentores;

– Se cerque de pessoas em que confia lhe dizer sempre a verdade e faça perguntas sobre seu desempenho;

– Se não tiver, crie seu círculo de confiança. Se nunca consegue ter pessoas em que confia a sua volta o problema está em você;

– Se ainda assim precisar de mais referências sobre sua habilidade ou desempenho, contrate um consultor ou coaching de performance;

– Leia livros que muitas vezes são deixados de lado pela facilidade das informações genéricas, rápidas e muitas vezes superficiais, acompanhe as novas legislações, participe de encontros com especialistas como seminários e congressos, ouça o contraditório com a mente aberta, busque sempre fontes confiáveis, leia artigos científicos, teses e dissertações.

Todos nós somos incompetentes em uma ou algumas áreas e, a prática da humildade em reconhecer às mudanças e a inerente necessidade de aprendizado contínuo pode ser vital para o sucesso ou fracasso na carreira jurídica.

As transformações na sociedade nunca foram tão radicais como as que constatamos em tempos recentes. O modo de se operar o Direito não poderia ficar fora desse contexto, particularmente no tocante às novas tecnologias e novos meios para troca de informações que aportaram no mundo digital.

Em tempos de transformação é preciso aprender a desaprender para sempre aprender algo novo.

*Bruno Pedro Bom, advogado e publicitário, fundador da BBDE Marketing Jurídico, diretor de Marketing do IBDP. Autor da obra Marketing Jurídico na Prática publicado pela editora Revista dos Tribunais

Fonte: https://foodsafetybrazil.org/efeito-dunning-kruger-profissionais-de-seguranca-dos-alimentos/ acessado dia 17 de agosto às 11:30 horas.

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