O ressurgir da esperança

O ressurgir da esperança

José Renato Nalini*

04 de abril de 2021 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Embora o capitalismo selvagem que implementou o consumismo qual nova religião contemporânea rotule a Páscoa de festa chocolateira, o seu sentido não pode ser desvinculado do cristianismo.

É a celebração da ressurreição de Jesus Cristo, que foi crucificado e, ao terceiro dia, ressurgiu dos mortos. Esse fato é o que justifica a existência das confissões cristãs. Paulo Apóstolo, que não conheceu pessoalmente Jesus, teve bem presente esse ponto fulcral da fé. Se o Cristo não ressuscitou, vã seria a crença. A verdade em que os cristãos alicerçam sua esperança na vida eterna é a de que um ser humano ressuscitou. Isso significa voltar a viver depois da morte e, se ele mostrou ser isso possível, então é válido esperar que outros seres humanos também o consigam.

Nada contra ovos de páscoa, nem se propõe o banimento dos coelhinhos. Mas é preciso lembrar que, assim como o Natal não é a festa de se trocar presentes, mas nascimento de Cristo, Páscoa é a celebração da ressurreição.

Neste 2021, todos nós precisamos dessa esperança.

Inúmeros os motivos. Caminhamos rapidamente para meio milhão de mortos no Brasil, que não acreditou na peste, chamada “gripezinha” ou “resfriadinho” e não cuidou de providenciar imunizantes.

Também não confiou nas recomendações da ciência e da OMS e não adotou o lockdown, mas preferiu aglomerar-se, amontoar-se, continuar a vida normal. Por sinal, vida sofrível para a maior parte da população. Aquela que, nem querendo, consegue observar o distanciamento inibidor da contaminação.

O Brasil já não vinha bem. Um combo de crises começou com a falência da ética, em vários setores. À evidência, tornou-se crise moral. Repercutiu na economia, que capengava por falta de visão estatal e também da elite presumivelmente provida de discernimento.

Para culminar, a peste. A praga. A enfermidade mortal. A pandemia.

O que já não se escreveu sobre isso? A maior parte das pessoas está enojada de tanto ouvir falar em Covid19. Só que, ao lado dessa legião, existe aquela que lamenta a partida de seus entes queridos. Famílias inteiras devastadas. A morte na solidão, porque não é possível ao familiar não infectado, permanecer ao lado daquele entubado. E os que sequer conseguem leito nas Unidades de Terapia Intensiva e morrem nas macas, nas filas, nas ambulâncias, nos corredores das Unidades Básicas de Saúde?

Décadas transcorrerão antes que as sequelas mentais dessa tragédia comecem a se cicatrizar. Pois além da dor indescritível da separação, existe o sofrimento insuperável da ausência de despedida e a falta do ritual do luto. A quantos não fará companhia, pelo restante de suas vidas, o pesadelo de não acreditar que seus entes queridos já morreram?

Muito se afirmou que a humanidade não será a mesma depois dessa calamitosa era. Falou-se em “novo normal”, apelido do anormal. É óbvio que o mundo será diferente. Quantos seres humanos deixaram de existir? Não há refil para indivíduos. Todos são singulares, heterogênos, irrepetíveis.

Todavia, o sofrimento é também a fórmula da perfeição. Quando em lugar de revolta vem a resignação diante do inevitável e o reconhecimento de nossa fragilidade, é confiar que nos tornemos mais humildes.

Nossa vã pretensão nos faz acreditar sermos imunes. Quando percebemos a falácia de tal sentimento, podemos enveredar por uma senda menos dependente das externalidades. Aprender a se conhecer melhor, a conhecer melhor o próximo, a respeitar mais a natureza. A acertar contas com a transcendência.

Como seria bom que após a pandemia, a saúde fosse mais valorizada. O saneamento básico levado a sério. A natureza recomposta, pois tudo está interligado.

Temos sido omissos em cobrar do governante, nosso servo, o respeito absoluto à vontade constitucional que se propôs a edificar uma pátria justa, fraterna e solidária. Com erradicação da miséria e redução das desigualdades. Com educação de qualidade, a cargo do Estado, da família e da sociedade. Com veneração à exuberante natureza com que fomos privilegiados, nós que não sabemos “fazer” uma árvore, mas conseguimos destruir toda uma floresta mediante uso de potentes motosserras ou de correntes atadas a tratores.

O ressurgimento de um novo “eu” dentro de cada consciência, embora machucada com tanta aflição, angústia e pânico, seria um autêntico milagre. E o mundo precisa de mais milagres, além daqueles que ocorrem e que nossa cegueira não permite enxergar. Ou não é milagre que os invisíveis e excluídos resistam à violência dessa enfermidade e continuem a acreditar num amanhã radioso?

Chocolate é bom, mas acreditar em ressurreição é melhor. Uma Páscoa da ressurreição da esperança para todos!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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