O resgate da geração covid-19

O resgate da geração covid-19

Cris Monteiro*

06 de abril de 2021 | 07h50

Cris Monteiro. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há muito o Brasil todo observa o desafio do abandono e da evasão escolar. Antes mesmo da pandemia, nossos jovens já desistiam dos estudos por muitos motivos. Os prejuízos econômicos e sociais para o país têm sido profundos, mas devem ainda se agravar nessa geração de crianças e jovens, que começa a ser chamada de Geração Covid-19 ou Geração C. Muitas ações precisam ser assumidas, principalmente a partir do setor público, para estimular a educação escolar. A escolaridade está intimamente ligada à pobreza ou à riqueza de uma sociedade.

Em todo o mundo a Geração C enfrenta dificuldades. Mas para se ter uma ideia da gravidade da situação brasileira é só olhar o passado recente. Em 2019 o IBGE divulgou os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PnadC) e concluiu que de aproximadamente 3,2 milhões de jovens com 19 anos, apenas 2 milhões deles (63,5%) concluíam o Ensino Médio.

Na capital paulista, a situação tinha melhorado, pelo menos antes da pandemia. Em 2016, a taxa de abandono escolar no ensino fundamental da rede municipal era de 1,12%. Em 2019, tinha caído para 0,95% na cidade, segundo a Plataforma de Centros Urbanos da Unicef. De acordo com um relatório da Unicef e com dados do Censo Escolar INEP, dos 41 distritos paulistanos que tinham as piores taxas de abandono escolar no ensino fundamental na rede municipal em 2016, 33 contaram com melhora nos indicadores em 2019. Mas os especialistas alertam que a evasão está crescendo na pandemia. Uma pesquisa realizada pelo Conselho Nacional da Juventude em parceria com outras entidades mostrou, em maio do ano passado, que três em cada 10 jovens de 15 a 29 anos já pensavam em não retornar às aulas e metade não pensava em prestar o Enem.

É fato que a economia brasileira sofrerá ainda mais com a evasão escolar. Pesquisadores do Insper e da Fundação Roberto Marinho estimam que o custo da evasão de jovens que não concluem a educação básica é de R$ 214 bilhões por ano. Isto acontece porque aquele que desiste da escola acaba tendo uma saúde mais frágil, menor renda e maiores chances de se envolver com a criminalidade.

A Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do IBGE mostrou que em 2018, cerca de 11,8% dos jovens com 15 a 17 anos de idade que estavam entre os 20% da população com os menores rendimentos abandonaram a escola antes de concluir o ensino médio. Ainda, 40% dos brasileiros com 25 anos ou mais não tinham instrução ou sequer concluíram o ensino fundamental.

É consenso que a educação é o principal fator gerador de crescimento econômico, redução das desigualdades e diminuição da violência. São muitas as razões para que o poder público, a escola, o professor e a família se reorientem para resgatar aqueles que se distanciaram ou que estão sob o risco de deixarem os estudos.

Entre os motivos para que crianças e jovens se fixem no ambiente escolar, um dos mais relevantes é que escola é um ambiente de desenvolvimento social, cultural, ético e crítico de extrema importância. Além disso, o acesso à informação é necessário para melhoria da qualidade de vida, geração de autonomia e liberdade da sociedade. E, por fim, o aprendizado contínuo desde a infância impacta diretamente na melhoria da saúde, no aumento da renda e na satisfação pessoal das pessoas.

É depois do ensino fundamental, quando o jovem está no ensino médio, que o abandono escolar começa a aumentar consideravelmente no Brasil, o que mostra a relevância de se começar o processo de engajamento do estudante com a escola durante o ensino fundamental.

É baseado nessa realidade da chamada Geração C que meu gabinete de vereadora em São Paulo decidiu elaborar um plano que ajude a Prefeitura de São Paulo a frear a evasão. De nossa parte, a ideia é tornar a sala de aula um espaço mais atrativo para o estudante do século XXI. Consideramos que fatores como a necessidade de trabalhar para ajudar a família, a falta de acesso à tecnologia para acompanhamento das atividades virtuais e o distanciamento por mais de um ano do ambiente escolar influenciarão ainda mais o abandono escolar. O projeto de lei que apresentamos é uma pequena contribuição que, esperamos, ocupe e estimule ou mesmo desperte outros espaços de ações públicas.

É de suma importância que haja formulação e implementação de políticas públicas baseadas em evidências. São muitas as possibilidades, desde a promoção de disciplinas de Projeto de Vida, focadas nos planos para depois da conclusão do ensino básico, currículo complementar com oportunidade de escolha de disciplinas eletivas, atividades de autoconhecimento; maior uso de tecnologias dentro da  sala de aula, visitas aos alunos evadidos, palestras e rodas de conversas de conscientização, de combate ao bullying e à gravidez precoce e até a identificação dos alunos e famílias que precisam de apoio financeiro para despesas básicas, são iniciativas impactantes e que devem ser praticadas com afinco em cidades como a nossa São Paulo.

*Cris Monteiro é vereadora em São Paulo pelo partido Novo e atuou como executiva do mercado financeiro por 30 anos

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