O rei está nu e a dívida também

Alfredo Behrens*

15 Junho 2018 | 08h00

Seu Zé atravessou a Av. Francisco Matarazzo com a presteza dos sobreviventes, burlando o sinal de trânsito, rápido para pessoas da idade dele. Seu Zé aparenta ter uns 70 anos, quem sabe tenha menos. Com um chapéu de palha ruído, é um desses homens que parecem ter chegado ontem do interior. Mas, andava como quem sabe para onde vai No entanto, apesar da sua agilidade, ele, em breve, deverá demandar ainda mais do SUS, como talvez demande já da aposentadoria. Quem sabe seus netos demandarão também educação.

Aos olhos dos que predicam austeridade, seu Zé, e quem sabe seus dependentes, custem mais aos cofres públicos do que produzem.Mas eu cá, sem entender muito da coisa, sei que por ser ano eleitoral ninguém vai querer dizer que cortar benefícios dos idosos seja uma solução. Mas ouço dizer que querem encolher as aposentadorias, que daria em algo parecido, sem sujar tanto as mãos ou as línguas de quem propõe.

Tem quem já faça o despejo dos pais, como acontece na Inglaterra, transferindo o custo para os ingleses. Juro, é verdade, jogam para longe os velhos, como aqui jogamos cães e gatos na USP. Daí que, no New York Times foi publicada uma matéria com o título: “Despejando avós aos milhares”. Tudo lá é grandioso – e espantoso – mas é verdade, como as propostas brasileiras para condenar à penúria os mais velhos.

Quem sabe, até a maioria aceitaria essa como sendo solução final, se não houvesse outra. Tipo, passou da expectativa de vida média: faca neles! Assim, a média iria cair, melhor ainda, terminaríamos logo com o problema da despesa do SUS e da aposentadoria.

Mas eu cá, novamente, sem entender muito da coisa, pergunto, será que são as aposentadorias, saúde e educação os únicos setores que temos para cortar? Por que se a mentalidade predominante for a do açougueiro impenitente, diria que a faca deveria cair primeiro onde tem mais gordura para cortar.

E a dívida pública, quanto custa? Pasmem, custa o dobro do que gastamos nas aposentadorias! Epa! Será que não daria para redirecionar a faca para cortar a dívida? Sejamos bonzinhos, não precisa esfaquear os beneficiários dos juros, sequer condenar à fome, é só iniciar a dieta, ou seja, o que comeriam em um ano, poderão comer em quatro.

Uma aritmética simples que propiciaria no primeiro ano, uma sobra de tanto dinheiro que daria para duplicar o que é gasto ao longo de um ano em aposentadorias, saúde e educação, juntas! Os feiticeiros da dívida dirão que a conta está errada, mas sabemos que não está.

Lógico, que ninguém é louco de propor uma solução tão radical, nem mesmo num ano eleitoral. Até porque já viu como ficam insuportáveis os que fazem dieta? Forçada então, nem se fala!

Mas, cá entre nós, a dívida pública ficou desse tamanho porque os beneficiários dos juros emprestavam alegremente para governos que gastavam alegremente passando o custo do pagamento para quem vinha depois. Só que a alegria está para acabar porque não vai ter mais dinheiro para pagar os juros. Ou seja, o chope está para acabar. Não vai acabar hoje, nem amanhã, mas a este passo sabemos que vai acabar, daí as diversas propostas de soluções finais, como as que visam condenar os idosos à fome e as PECs da vida.

Na dinâmica das coisas, se a festa vai acabar. Daqui a pouco vai vingar a profecia daquele analista de investimento sobre o México de 1982. Ele dizia para os investidores que a festa mexicana era boa, mas que era um pouco tarde para investir lá. Porém, se fossem investir seria melhor ficar perto da porta, porque a correria para sair seria grande; e foi.

Por isso, antes de provocar uma correria, vale a pena ordenar o final da festa, mas não fingir que não vai acabar. Claro que vai ter gritaria, mas convém lembrar que quem investiu em títulos da dívida brasileira, que pagava juros escorchantes, sabia que lucraria fácil. Quando o risco se materializar, os espertinhos que ficaram mais próximos da porta – como com aplicações de maior liquidez – sairão primeiro.

O prognóstico sobre a crise da dívida mexicana vale ainda hoje: após décadas de “juros escorchantes”, naturalmente a dívida pública cresceu mais rapidamente do que o PIB. Ao ponto de ficar assustadora. É natural que dê medo, inclusive que não possa ser paga. Por parecerem bem-comportados, os formuladores de políticas oficiais congelam salários dos servidores públicos, recortam aposentadorias e outros serviços públicos, como saúde e educação e inclusive segurança. Assim é que um país, abençoado por Deus e bonito por natureza, hoje está aos cacos: das prisões de Natal até as calçadas de São Paulo.

Antes de continuar a incinerar vidas, vale a pena pensar em alternativas mais justas do que esfomear os “seus Zés”.

*Alfredo Behrens é Ph.D. pela Universidade de Cambridge, professor de liderança na FIA (Fundação Instituto de Administração), coordenador dos encontros de executivos Winvest Cafés e autor de Gaucho Dialogues on Leadership and Management (2017)

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