O racismo para a Filosofia

Antoine Abed*

21 de junho de 2020 | 07h00

Antoine Abed. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quanto tempo será preciso para que nossa sociedade evolua a ponto de não presenciarmos mais a episódios de cunho racista? Após mais um triste caso de violência policial contra um americano negro, temos a clareza que não é só em países subdesenvolvidos como o Brasil que esse comportamento bizarro ainda acontece. Mesmo sabendo que a absoluta maioria dos indivíduos já possuem consciência da velocidade como o mundo se transforma, ainda assim, não conseguimos nos livrar de velhos preconceitos. Então, como entender e lutar contra os preconceitos de acordo com a filosofia?

Em seu pensamento, o filósofo Jean Paul Sartre tem como ponto de partida a crítica àqueles que tentam reduzir os preconceitos em opiniões. Opiniões tendem a relativizar e transformar o problema: se falamos que é uma questão de opinião, acabamos relacionando a um certo tipo de “preferência” e, como sabemos, todas devem ser aceitas num mundo democrático. Segundo suas palavras: “tomar o preconceito como opinião é torná-lo inofensivo, pois, gosto, cores e opiniões, não se discutem”. Aqui, temos que notar que a liberdade de expressão pode legitimar o preconceito, porém, para Sartre, o preconceito, de forma geral, não pode ser legitimado pela liberdade de expressão porque não se trata de um pensamento, mas sim de uma paixão.

Não sendo uma opinião na perspectiva sartreana, o racismo é uma escolha feita pelo indivíduo que vive com visões de mundo distorcidas. Sendo uma escolha, o pensamento determinista, inato ou adquirido, não pode ser mais uma desculpa para o “nada pode ser feito”. Temos o dever de enfrentá-la para não somente nos posicionarmos contra o racismo, mas também incorporarmos o espírito antirracista. Segundo Sartre, “não basta conhecer uma paixão por sua causa para suprimi-la, é preciso vivê-la, opor-lhe outras paixões, combatê-la com tenacidade, enfim, trabalhar-se”.

O preconceituoso escolhe viver num estado passional e não racional, prefere um falso raciocínio que justifique sua paixão ou ódio. Nesta descrição feita sobre o indivíduo preconceituoso, Sartre divide em três as possibilidades: a nostalgia da impermeabilidade, o desconhecimento de si e a mediocridade. Vale a pena a transcrição de um pequeno trecho que melhor explica o que ele entende sobre a nostalgia da impermeabilidade e o desconhecimento de si: “O homem racional busca angustiosamente a verdade, está ciente de que seus raciocínios são apenas prováveis, de que outras considerações vão colocá-los em dúvidas; nunca sabe muito bem para onde está indo; é ‘aberto’, pode até ser tomado por hesitante. Mas há pessoas que são atraídas pela constância das pedras. Querem ser maciças e impenetráveis, não querem mudar – pois aonde a mudança as levaria? Trata-se de um medo primordial de si mesmos e um medo da verdade… Mas elas querem opiniões adquiridas, querem opiniões inatas; como tem medo de raciocinar, desejam um modo de vida no qual o raciocínio e a indagação tenham um papel apenas subalterno, no qual só se busque o que já se descobriu, no qual o que já é nunca se transforme. Para isso resta apenas a paixão. Só um forte preconceito pode produzir uma certeza fulgurante, só ele pode subjugar o raciocínio, só ele pode permanecer impermeável à experiência e durar toda uma vida.”

Na última característica descrita acima, porém não menos importante, a mediocridade diz respeito à impossibilidade de ser racista sozinho. A mediocridade marca a escolha do racista ou preconceituoso em geral que “… escolhe o irremediável por medo da liberdade, a mediocridade por medo da solidão, e por orgulho faz desta irremediável mediocridade uma aristocracia petrificada”. Almeja colocar seu grupo em posição de superioridade a algum outro, mesmo quando esse outro não possui equivalência na disputa de poderes.

Por fim, Sartre enxerga o racista – mas podemos substituir por qualquer outro tipo de indivíduo preconceituoso, tais como o homofóbico, xenofóbico, misógino e etc., como um homem que tem medo. “Medo de si próprio, de sua consciência, de sua liberdade, de seus instintos, de suas responsabilidades, da solidão, da mudança, da sociedade e do mundo. É um covarde que não confessa sua covardia.” Desse modo, não parece uma tarefa fácil eliminarmos esse tipo de indivíduo que tem medo de pensar e de libertar-se das suas paixões, vivendo uma preferência pela desvalorização da verdade e da razão. Por essas razões, temos que nos superarmos se quisermos realmente mudar a maneira como tratamos nossos semelhantes, uma tarefa que é uma obrigação moral dos que são livres. Sejamos fortes para seguir na direção do esclarecimento dos que insistem em viver no atraso e de forma covarde pois, como nos alertou o escritor Issac Asimov: “O aspecto mais triste da vida atualmente é que a ciência coleta conhecimento mais rapidamente do que a sociedade coleta sabedoria”.

*Antoine Abed é presidente-fundador do Instituto Dignidade e autor da obra Ensaio Sobre a Crise da Felicidade

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