O queijo e o roubo a banco

O queijo e o roubo a banco

Leonardo Sant’Anna*

04 de dezembro de 2020 | 15h55

Leonardo Sant’Anna. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando você ouve a palavra cheddar, possivelmente sua mente vai ser povoada por uma imagem agradável, de coloração amarela e textura suave. O cheirinho que acompanha aquela visão complementa o desenho do queijo que tem esse nome. Fale a verdade: sua boca se encheu de água, não foi? Você imaginaria que isso, de alguma maneira, se relacionaria com os casos de roubo a banco ocorridos no início deste dezembro de 2020 no Brasil? Pois é essa estória que vou te contar em detalhes.

A visão dos roubos a banco, com uma parte do centro da cidade de Criciúma completamente sitiada, é estarrecedora. Imagens de moradores foram divulgadas em inúmeros meios digitais e redes de televisão. Não era uma simulação ou cenário de filme. Viu-se de tudo: de grupos de reféns quase nus, à desativação de pacotes explosivos; de armas que só apareciam no filme do Rambo, a membros do bando esbanjando pompa nos carros luxuosos usados no roubo.

Pelas informações e cronologia dos fatos, foram quase duas horas onde houve completo controle dos bandidos. É tempo suficiente para que você vá para a sala de sua casa e assista confortavelmente uma partida de futebol. Ah, e contando com o intervalo. Mas você sabe qual é o real significado de se conseguir isolar uma cidade como Criciúma? Até onde isso lhe afeta, em especial se você não for de Santa Catarina ou nem sequer tenha visitado a região sul do país?

Acontece, meu leitor brasileiro, que estamos falando de uma ação criminosa altamente crítica em um município que se encontra entre os 100 mais desenvolvidos do Brasil. Tratamos de uma cidade com mais de 200 mil habitantes, dotada de um polo industrial com cerca de uma dezena de negócios de altíssimo lucro – dentre eles a construção civil e parques gráficos – e que já esteve entre as 50 melhores cidades do país para fazer negócios, no início dos anos 2000. E mesmo com todos esses adjetivos não foi possível fazer frente ao crime? Difícil compreender isso, concorda?

E os bancos?

Segundo Doug Johnson, enquanto ainda exercia suas funções como um dos mais respeitados experts em segurança e análise de riscos da American Bankers Association, nos EUA, a desaceleração da economia é um dos maiores sintomas de que o crime organizado tem campo para atuação. Esse é um sinal visto em diversos pontos do mundo. A diferença que temos em relação aos Estados Unidos é que ainda nos arrastamos com um conjunto de normas que não gera facilitadores aos operadores de segurança pública e privada.

Em 2000, quando fiz em Brasília o 1º. Seminário de Estudos Policiais, conversei extensamente com o amigo e um dos palestrantes, que já não está mais entre nós, Renato  de Toledo Guimarães Vaz. O então superintendente executivo do Banco Santander foi responsável pela segurança do banco no país. Já naquela época tratávamos da inteligência policial como uma chave mestra e certeira para bloquear a atuação desses bandos.

Outro ponto alto de nosso diálogo e de sua palestra: a melhoria acanhada na integração efetiva com os departamentos de segurança das instituições bancárias. A velocidade das mudanças continua incompatível com o progresso das organizações criminosas. O caso de Criciúma também nos aponta como necessária uma melhor distribuição territorial e aparelhamento dos núcleos de ações policiais que realizam a reação imediata para casos dessa magnitude, contemplando os campos operacional, tecnológico, estratégico e jurídico. Como resultado, aumenta-se a capacidade de confronto, caso ocorra, celeridade na coleta de informações e rápida análise dos dados ligados a esses eventos.

Mas e os bandidos? E o tal queijo?

Assaltos como esse não são comuns pois carecem de altos investimentos e longo planejamento, feito por pessoas que conheçam de diversos ramos que se conectem ao roubo, em especial o da obtenção de informações privilegiadas. Além disso, armas, munições, explosivos e demais ferramentas para realizar o crime são extremamente difíceis de serem adquiridos.

A comparação imediata é feita com o fenômeno classificado como Novo Cangaço, onde hordas de ladrões se reúnem para atacar cidades interioranas. Contudo, as ações vistas recentemente já ultrapassaram características como a realização de assaltos dos usando técnicas e armamentos privativos de policiais e militares. Os cangaceiros da década de 1930, Lampião e Corisco, foram substituídos por especialistas em tecnologia e analistas de cenário e de risco. Isso altera completamente esse jogo e reacende a luz do amadorismo com que foram tratadas ao longo dos anos as demandas de segurança no Brasil.

O nosso país, infelizmente, ainda é motivo de chacota internacional quando tratamos desse tipo de cenário. Em março de 2016, como parte de meus lampejos de pesquisa em segurança, tropecei com uma animação muito bem conduzida, que falava do maior roubo a banco da história mundial. Ele aconteceu… No Brasil. De maneira sarcástica e bem humorada, o sítio eletrônico apresentava um filmete contando o que aconteceu na cidade de Fortaleza, ilustrada como local paradisíaco e de areias branquinhas, quando do assalto ao Banco Central do Brasil naquela capital em 2005.

O nome do canal digital? Cheddar. Isso mesmo. Cheddar. O tal queijo amarelinho e tão apreciado. Mas, nesse caso, e possivelmente no de Criciúma, nós brasileiros tivemos uma baita indigestão.

*Leonardo Sant’Anna atuou por 28 anos na PMDF e foi consultor de segurança internacional em diversos países, alguns deles pela ONU. A autor do livro Quem mexeu na minha segurança?. Também realizou treinamentos para corporações como o Bope

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.