O que vem a ser fraqueza?

O que vem a ser fraqueza?

José Renato Nalini*

27 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A educação tradicional insiste na reafirmação de conceitos estabelecidos, com o intuito de inculcá-los nas mentes em formação. Vários deles se inserem nas chamadas virtudes “fortes”, quais a coragem, a força, a valentia, a audácia, o destemor, dentre tantas.

Tudo o que é contrário a esses ideais poderia ser considerado vício ou defeito. Assim o medo, a fragilidade, o receio, o cometimento, a falta de ânimo para enfrentar os desafios.

Moldados sob essa forma, os indivíduos começam a representar, como se estivessem num teatro. Daí vêm noções como “homem não chora”, reforçadas pela presença de heróis emblemáticos, com lugar cativo na consciência coletiva.

“O sertanejo é antes de tudo um forte!”. Será verdadeiro o asserto? O que significa essa expressão?

No momento em que a mata é incendiada e deixa de ser o acervo de biodiversidade que não chegou a ser explorado, o que resta de força para o homem do campo, aquele que respeita a natureza e que nela enxerga uma aliada para o seu cultivo?

Será fraca a gente que reivindica a observância de uma Constituição que foi denominada “Cidadã”? Ou deve prevalecer a versão da “brava gente brasileira, longe vá temor servil…”?

A consequência dessa mensagem é tornar as pessoas tolhidas, sob evidente constrangimento quando têm de admitir falhas, deficiências ou debilidades. Máculas naturais numa espécie falível e imperfeita, mas que pode se agasalhar no mito da perfectibilidade. A jornada tão efêmera por este planeta seria a oportunidade para consolidar valores e crescer interiormente. Para que na finalização do percurso, se pudesse concluir que valeu a pena passar pelo mundo.

Sempre é tempo de rever aquilo que ficou entranhado e que nem sempre está na consciência acuada, até atormentada de quem se defronta com indefinível mal-estar, diante de circunstâncias que assustam.

Como seria interessante que as pessoas fizessem contínuo exame de consciência e pudessem detectar seus defeitos, com humilde reconhecimento de que o humano é pleno de carências e de pontos vulneráveis.

Se cada um tivesse a coragem – aqui sim, essa virtude forte que às vezes implica em agir impulsivamente – de se conhecer de maneira tal que as falhas seriam consideradas naturais. Algumas delas, passíveis de gradual desaparecimento, se isso resultar de uma vontade firme e deliberada de se livrar daquilo que gera desconforto.

O autoconhecimento é proposta recorrente, que os helenos souberam cristalizar na bela fórmula socrática do “conhece-te a ti mesmo”. Sua busca é permanente e está longe de ser fácil. O ego é esperto e prefere se auto-enganar em lugar de se autoconhecer. Somos peritos em apontar defeito alheio; somos menos afoitos ao reconhecer que também ostentamos as mesmas fissuras que acompanham a criatura pretensiosa, que se considera a única espécie racional do cosmos.

Quem não consegue se enxergar profundamente, precisa recorrer a um apoio externo. Sob a forma de análise, psicanálise, terapia comportamental, mas também na orientação espiritual. Há espíritos superiores que não hesitam na missão de estender a mão e oferecer o ombro amigo. Sacerdotes, pastores, líderes de qualquer confissão ou mesmo aqueles que têm o talento de saber ouvir.

Não é fraco o ser humano que precisa do outro. Na verdade, este animal racional existe para conviver. O destino do humano é partilhar vivência, experiência, companheirismo, amor, amizade, sentimentos nobres com outro humano.

A hipótese do “homem-só” foi delineada por Tomás de Aquino quando indicou a “excelentia naturae” de quem não precisa dos irmãos, porque já nasceu com a predestinação de se bastar no contato permanente com o Criador. Ou a “corruptio naturae”, de quem é acometido de tamanha anomalia, que não consegue conviver com outros humanos.

A terceira hipótese é a “mala fortuna”, o azar, o acidente que levou Robinson Crusoé a permanecer sozinho numa ilha, para onde teve a sorte de chegar vivo após um naufrágio. Teve de enfrentar perigos e o maior deles, a solidão. Até que chegasse o nativo a quem chamou ‘Sexta-feira”, pois apareceu nesse dia de uma semana qualquer, depois que já estava acostumado a suportar sua situação solitária.

Não é fraqueza precisar do próximo. Ao contrário, sinal de força e de equilíbrio. Triste figura a do indivíduo que prefere ficar sozinho e tem dificuldade no convívio. É da experiência de uma vida em comum que o caráter extrai as características que permitirão o desenho de uma personalidade singular, única, heterogênea e irrepetível.

Aceitemos nossa miserável condição de seres dependentes, uns dos outros, o que é sinal de esperança na obtenção de apoio quando se necessitar dele. Talvez valha a pena uma reflexão que inverta os sinais insculpidos na transmissão consolidada de “verdades”: fraco é o solitário; forte o convivente. Com a vantagem de ficar a cada dia mais forte, resultado de treino psicológico no entrevero de ideias distintas, habilmente expostas pelos respectivos crentes.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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