O que uma biblioteca americana pode ensinar sobre o futuro dos estudos?

O que uma biblioteca americana pode ensinar sobre o futuro dos estudos?

A biblioteca do futuro: recursos tecnológicos e espaços para discussão

Pedro Gonet Branco*

16 de junho de 2019 | 12h00

Pedro Gonet Branco. FOTO: ACERVO PESSOAL

O filósofo teuto-coreano Byung-Chul Han, ao analisar a sociedade que se desenvolveu com o advento da internet, concluiu que ter mais informação deixou de ser sinônimo de tomar as melhores decisões. Numa universidade, por exemplo, não basta ter acesso a tudo o que a humanidade já produziu, mas é preciso ter capacidade de filtrar o que é pertinente para os fins acadêmicos desejados.

A University of California (UC) Berkeley, que fica na região mais inovadora do planeta – o Vale do Silício -, oferece valiosas lições de como os centros de ensino superior podem lidar com os desafios da contemporaneidade.

Classificada pelo mais recente ranking da U.S. News & World Report (1) como a melhor universidade pública do mundo e a quarta melhor entre todas as instituições de ensino superior – atrás apenas de Harvard, MIT e Stanford -, Berkeley coleciona grandes feitos acadêmicos e sociais.

Empreendedores como Steve Wozniak, da Apple, Gordon Moore, da Intel, e Tom Anderson, do Myspace, passaram pela UC Berkeley e compõem o grupo de pessoas formadas pelo instituto que se destacam no mundo dos negócios: Berkeley é a terceira universidade que mais produz empreendedores nos Estados Unidos (2). Entre outras façanhas, acadêmicos da UC Berkeley já garantiram à instituição 22 prêmios Nobel, descobriram dezesseis elementos da tabela periódica (3), e receberem mais de 200 medalhas da American Academy of Arts and Science. Além da excelência acadêmica, a University of California Berkeley também é reconhecida pelo protagonismo social. Lá surgiu em 1964, por exemplo, o Free Speech Movement, o primeiro ato de desobediência civil em massa em uma universidade americana que pleiteava o fim de restrições a atividades políticas nos campi.

Além de professores engajados, solidários e apaixonados pelo que fazem, a universidade propicia um ambiente que estimula o estudo e o devotamento ao aprendizado. Passei um semestre como estudante visitante em Berkeley e me admirei com o fato de que, desde o primeiro dia de aula, as 29 bibliotecas das quais o campus dispõe são tomadas por estudantes em busca da excelência acadêmica. Uma biblioteca em particular, a Moffitt Library, é um exemplo instrutivo de como o modelo berkeliano pode servir de inspiração ao sistema educacional brasileiro.

A Moffitt funciona 24 horas por dia e está sempre cheia. Surpreendeu-me o dia em que saí de lá às 23h e o lugar permanecia lotado. Pensei tratar-se de uma exceção. Alguns dias depois fiquei na biblioteca até 1h30 da manhã e, para a minha surpresa, o local continuava cheio. Não importa a hora do dia, nem a proximidade ou não das datas de provas, a Moffitt Library estará repleta de alunos ávidos pelo conhecimento.

Não apenas a demonstração de esforço dos estudantes, mas também a forma como a Moffitt foi pensada reflete uma filosofia pedagógica bem-sucedida. A imagem que temos de bibliotecas geralmente envolve um local que agrega informação e conhecimento, com intermináveis estantes repletas de livros. Em Berkeley não é diferente, afinal são mais de 12 milhões de livros à disposição dos estudantes. As bibliotecas do século 21, no entanto, não podem se contentar em ser apenas coleções de livros. Devem ser espaços que facilitem o aprendizado.

A Moffitt Library sintetiza o que as bibliotecas modernas devem buscar. Além de armazenar livros e oferecer cabines de estudo, esses centros de estudo devem: (i) possibilitar que os estudantes encontrem, analisem e apresentem informação de modo eficaz; (ii) fornecer recursos que otimizem o tempo dos alunos e os ajudem a resolver problemas de maneira criativa; e (iii) criar espaços que estimulem um estudo colaborativo.

A crítica de Byung-Chul Han sobre o excesso de conteúdo e informação deve ser acolhida pelos que planejam as bibliotecas do futuro. Dedicar mais tempo à filtragem de informação em detrimento da produção de conhecimento prejudica o fim último das universidades: aprimorar o conhecimento existente para solucionar problemas. A biblioteca moderna deve ser capaz de prover os estudantes com recursos que os ajudem a selecionar o conhecimento relevante para os seus objetivos de maneira eficaz.

A UC Berkeley disponibiliza à comunidade acadêmica uma equipe de bibliotecários altamente treinados que indicam, com precisão e rapidez, materiais úteis ao desenvolvimento dos projetos dos estudantes. Conta, ainda, com um sistema eletrônico que contribui com a busca por informação, tanto de conteúdo físico disponível no campus, quanto de conteúdo digital oriundo das mais prestigiosas revistas científicas do mundo. Está em desenvolvimento, também, o chamado genius bar, um espaço dentro da biblioteca para sanar as mais diversas dúvidas que possam surgir. Atualmente há uma equipe de especialistas em informática que auxiliam os alunos em assuntos relativos à utilização de recursos tecnológicos. O projeto, no entanto, pretende ir além e criar um hub de conhecimento que reúna experts de diferentes áreas do saber para auxiliar os estudantes.

Outro elemento curioso da biblioteca é a chamada REST zone. O nome é uma abreviação de Relaxation Enhancing Study and Tranquility (zona de relaxamento para aprimorar o estudo e de tranquilidade), mas também um trocadilho com a palavra rest, do inglês repouso. Trata-se de uma sala com bean bags – uma espécie de pufe gigante – e nap pods – cadeiras que tocam música, fazem massagem e reclinam 180º para que os alunos possam tirar cochilos. A ideia surgiu após uma série de estudos (4) que concluíram que alguns minutos de sono durante os estudos melhoram a performance dos indivíduos em até 34%, facilitando o aprendizado e fortificando a memória. A prática de oferecer ambientes para cochilos durante o dia, que ganhou até espaço até mesmo em grandes empresas do Vale do Silício (5), é estimulada pela universidade e contribui para a excelência acadêmica de Berkeley (6).

A principal diferença que se percebe na Moffitt, contudo, é tão simples quanto eficiente: espaços que estimulam a discussão e a geração de conhecimento em grupo. A ideia de que “duas cabeças pensam melhor que uma” é antiga, mas não tão bem aplicada na vida acadêmico-profissional quanto deveria.

Cada vez mais, os jovens que ingressam na vida profissional precisam aprender a trabalhar em equipe para buscar as melhores soluções para os problemas postos. A UC Berkeley reconhece essa necessidade também nas universidades, os polos de produção de conhecimento por excelência. Assim como a resolução de problemas no meio profissional, as descobertas científicas dependem do estudo colaborado.

O layout da Moffitt Library é a concretização de como deve ser o processo de aprendizado. Deve-se estudar para adquirir base científica, mas também discutir para progredir intelectual e academicamente. O quinto andar do prédio é dedicado aos estudantes que pretendem reforçar individualmente os alicerces do conhecimento, um ambiente silencioso e acolhedor. Já o quarto pavimento é um espaço inovador de estudo e colaboração, com diferentes ambientes que permitem que os alunos se reúnam e discutam seus estudos e projetos. A biblioteca oferece no andar de estudo compartilhado mesas com computadores; paredes de vidro e quadros branco que servem para anotações, cálculos, resultados de brainstorms; salas para videoconferência, a fim de possibilitar a produção de conhecimento também com alunos de outras universidades; sofás para os que se sentem mais confortáveis para discutir em um ambiente mais descontraído.

O modo como a Moffitt foi desenhada reflete a proposta pedagógica da universidade, uma ideia antiga que se faz cada vez mais necessária. Primeiramente, os alunos devem ser capazes de selecionar o conteúdo que desejam aprender – para isso contam com a ajuda fundamental dos professores. Em seguida devem dedicar sua atenção ao aprendizado e à compreensão do objeto do conhecimento que buscam, para que tenham capacidade de discutir e desenvolver novas ideias – afinal a universidade serve para gerar conhecimento, não apenas replicar. Por fim, com o objeto de estudo definido e bem compreendido, os alunos devem se reunir para aprofundar as discussões, refletir maneiras de aplicar o conhecimento adquirido nos seus estudos e projetos, trazer a perspectiva individual de cada um para o grupo e, então, desenvolver novos produtos, novas teorias, novas patentes, novas propostas para o país e para o mundo.

É assim que Berkeley, lugar que foi historicamente um celeiro de inovação, criatividade e resolução de problemas, trata os estudos. Proporciona aos alunos um ambiente propício ao aprendizado, com pleno acesso a informação e a fontes de conhecimento que caracterizam o século 21, mas também com o estímulo à investigação acadêmica em conjunto com outros colegas. É isso que dá continuidade à proposta da universidade de ser motor de avanço acadêmico e social, e é esse o sistema, concretizado na Moffitt Library, que deve servir de exemplo para nosso sistema educacional.

(1) Disponível em: https://www.usnews.com/education/best-global-universities/rankings?int=a27a09. Acesso em: 20 de maio de 2019.

(2) Disponível em: https://www.dailycal.org/2013/08/18/uc-berkeley-third-largest-producer-of-entrepreneurs-report-says/. Acesso em: 20 de maio de 2019.

(3) Disponível em: https://www2.lbl.gov/Science-Articles/Archive/new-elements-here.html. Acesso em: 20 de maio de 2019.

(4) Disponível em: https://www.huffpost.com/entry/to-nap-or-not-to-nap_n_9019292. Acessado em: 20 de maio de 2019; Ver também: Yoo, Seung-Schik, et al. “A deficit in the ability to form new human memories without sleep.” Nature neuroscience 10.3 (2007): 385.

(5) Conforme noticiado pelo jornal Financial Times, disponível em https://www.ft.com/content/09067126-3720-11e7-99bd-13beb0903fa3. Acessado em: 20 de maio de 2019.

(6) Disponível em: https://news.berkeley.edu/2010/02/22/naps_boost_learning_capacity/. Acessado em: 20 de maio de 2019.

*Pedro Gonet Branco, visiting student da University of California Berkeley. Acadêmico de Direito da Universidade de Brasília

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