O que tenho com a COP 26, a conferência sobre meio ambiente agora a se realizar em Glasgow – Reino Unido?

O que tenho com a COP 26, a conferência sobre meio ambiente agora a se realizar em Glasgow – Reino Unido?

Maria Francisca Mauro*

01 de novembro de 2021 | 12h30

Maria Francisca Mauro. FOTO: DIVULGAÇÃO

Primeiro, precisamos nos localizar o que é a “Conferência das Partes”, em que o Reino Unido sedia uma conferência com foco para metas mais assertivas para o meio ambiente e sustentabilidade ao redor do mundo. Neste ano, Glasgow para além da conferência tradicional anual, traz a marca de uma pandemia.

Neste cenário, a fragilidade humana se desvelou intensamente e a crise climática sensibilizou um maior número de pessoas. Se anteriormente, as pessoas assistiam ao Katrina com seus desdobramentos, as epidemias do Ebola na África, aos terremotos no Japão, as ondas de calor na Europa e toda sorte de queimadas da Califórnia a Austrália, o Covid-19 trouxe aquela sensação de vulnerabilidade geral. Qualquer um pode se infectar, ou ter uma perda de alguém que ama.

Este sentimento de vulnerabilidade, acaba por criar identificação. Assim, para muitos caiu a ficha do “pode ser comigo”. Preciso fazer algo. Queimada no Pantanal, desmatamento na Amazônia e o Brasil seria vilão ou fantoche de uma agenda internacional? Independentemente da forma que conseguirmos elaborar, o nosso país é um protagonista na discussão ambiental. Temos uma diversidade de biomas em nosso território, da Mata Atlântica à Caatinga, do Sertão ao Agreste, da Floresta Tropical nossa Amazônia, do Pantanal ao Pampa, do Cerrado ao coração do nosso país. Sem que nos responsabilizemos, temos um papel preponderante na preservação da biodiversidade mundial. E sem hashtags vazias, ou mesmo ilusionismo, moramos num paraíso tropical abençoado por Deus e massacrado pela desigualdade de oportunidades. Sorria você é brasileiro, consegue dormir no caos e pagar por sua ilha de privilégio.

Vamos aos fatos. Nasci no meio rural, cercada de horta, chiqueiro, galinheiro e curral. Na minha época de criança, ia para fazenda quase todas as tardes, ou muitas delas. Ali tinha o mundo dos bichos, do silêncio, da cavalgada na minha égua Amazonas e toda sorte bucólica de uma infância na roça. Sem comparações, podia sonhar montada na Amazonas pelo pasto o que seria meu futuro. Divagava na fantasia infantil, dando aula com giz de lousa para algumas crianças, ou mesmo, na valentia infantil ousando contra bezerros ou algum bicho do terreiro.

Que sorte! Mal poderia adivinhar que estava provando o futuro e seu acesso de comida orgânica, sustentabilidade e valorização da vida simples. Num futurismo, sem precedentes, meus pais desconhecendo qualquer coisa para além da intuição, nos criou de forma integrada à natureza. Com toda proteção e amor, desfrutei da natureza do interior paulista, além de um quintal na cidade Barretos, com jabuticabeiras e cachorros grandes. Em setembro, os pés das jabuticabeiras anunciavam o prenúncio da primavera e quando meu quintal era algo cobiçado, uma vez que sem piscina não tinha muito o que oferecer naquelas disputas infantis de competição quanto a casa.

Agora na maturidade, meu pai com 84 anos minha mãe com 71 anos, mas com aquela força bruta do interior, me passaram a dar aulas de mudança climática.

Estudando ao longo da vida, fui abandonado o “arreio” do cavalo para a bancada de estudos. Devo confessar que ainda tenho dúvida qual ensina mais. Mas aproveitando, o academicismo com seu método, vou descrever o que nos últimos anos observei meus pais mais preocupados quanto à seca no cerrado.

Sim a seca, sua falta de chuva, ou mesmo a irregularidade climática que dominou o mundo. Além da imprevisibilidade climática que passou a preponderar onde meus pais moram, no coração do Brasil, passou a os deixar mais apreensivos. Se ao longo da vida, escutei sobre as secas do Nordeste, algumas intempéries climáticas em Santa Catarina e no Paraná, de repente, passei a ouvir familiares falando de uma “fumaça” quanto a queimada do Pantanal e meus pais visivelmente abatidos por um clima mais seco. Para além, dos fatos propagados na mídia.

Fatos quando são sentidos, ganham uma dimensão de “causa” e assim, ao ver a tristeza, apreensão, insegurança e luto dos meus pais passei a querer não ficar indiferente para ao que já fazia dentro do artificialismo de quem mora numa grande cidade. Abordo artificialismo, falo de alguns comedores veganos, vegetarianos, ou exclusivos de consumo orgânico que consomem o termo sem saber o que significa uma emissão de carbono zero, ou mesmo, que precisamos ter uma meta de não aumento da temperatura de 1.5 grau para poder conter o aquecimento global.

Independente, de onde por agora você estiver divagando, ou mesmo, escolhendo a próxima hashtag para chamar de sua, pense no Brasil. Pondere que no país, ainda sem saneamento básico, 84 ° no índice de desenvolvimento humano (IDH), sem acesso de uma educação de qualidade para maioria. Como pensar em clima, quando nem sabemos o que consiste clima? Olhe à sua volta.

No entanto, assegure-se de ser sustentável. Apague a luz, recicle, coma o que pode ser sustentável, invista em energia renovável, invista em fundos ou comodities que tenham preocupação com sustentabilidade, use o que compra de forma responsável, ou seja, perceba que o mundo ao seu redor não está à venda. Se você tem a ilusão que se pode comprar tudo, cuidado, este crédito tem prazo para extinção.

Vamos aprender juntos? Recicle sua postura.

*Maria Francisca Mauro, mestre em Psiquiatria pelo PROPSAM/UFRJ. Atua como psiquiatra especializada na área de Transtornos Alimentares e Obesidade. Pesquisadora colaboradora no PROCIBA/HUCFF/UFRJ (Programa de Obesidade e Cirurgia Bariátrica do Hospital Universitário Fraga Filho) e membro do GOTA/IPUB/UFRJ (Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares). Aluna de doutorado do Propsam/IPUB/UFRJ

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.