O que significaria mais uma commodity para o Brasil?

O que significaria mais uma commodity para o Brasil?

Marcelo de Vita Grecco*

28 de março de 2021 | 09h00

Marcelo De Vita Grecco. FOTO: DIVULGAÇÃO

O ano de 2020 ficará marcado na história pela imprevisibilidade. Quando a pandemia tomou o mundo de assalto sem aviso prévio, as projeções econômicas apontaram cenários catastróficos. Para o Brasil, por exemplo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estimava tombo superior a 9% no Produto Interno Bruto (PIB) anual. Já o Banco Mundial esperava queda de 8%. Felizmente, as previsões não se confirmaram. Ambos os órgãos revisaram os números e o mercado já aponta queda em torno de 4,5%. O resultado não é bom, claro, mas, por todos os impactos causados pela crise sanitária global acaba sendo razoável. Na União Europeia há perspectivas bem piores. Muitos podem estar se perguntando por que os indicadores brasileiros não despencaram ainda mais? A resposta está nas commodities.

Os produtos agrícolas e minerais comercializados no mercado internacional, literalmente, estão carregando a economia do País nas costas durante este ano. Segundo Dados do Indicador de Comércio Exterior (ICOMEX), levantados pelo Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em agosto todos os dez principais produtos exportados pelo Brasil foram commodities. Além disso, parte significativa desse conjunto teve aumento nos embarques desde janeiro. Esse movimento aconteceu naturalmente, pois, em um ano atípico como este, os países buscam manter ou recuperar seus estoques. Trata-se de um comportamento similar ao das pessoas que correram aos supermercados em março para comprar grandes volumes de itens básicos. E se a economia brasileira contasse com mais uma opção de commodity nesse rol de campeões de exportações?

Essa possibilidade é real e a oportunidade bate à porta nesse momento com o cultivo do cânhamo para fins industriais. E o melhor é que há total viabilidade para aproveitá-la e, até mesmo, assumir protagonismo em um mercado que podemos chamar de novo. Porém, embora a indústria legal da cannabis esteja ainda engatinhando, já estamos atrás e corremos o risco de, mais uma vez, ficarmos estagnados vendo o desenvolvimento alheio.

Possuímos terras agricultáveis disponíveis e posicionamento geográfico bastante favorável em relação às condições climáticas ideais para o cultivo de cânhamo. Além disso, temos caminho desenhado para a regulamentação da atividade, por meio do Projeto de Lei 399/2015, elaborado originalmente com foco no uso medicinal da cannabis, mas, que, felizmente, foi incrementado para contemplar também o plantio do cânhamo industrial.

Lembro que o cânhamo é uma espécie da Cannabis sativa, mesma linhagem de planta que, em outra variedade, é utilizada de forma recreacional. Porém, o cânhamo industrial possui reconhecidamente uma definição direcionada exclusivamente à espécie com concentração igual ou inferior a 0,3% do delta-9-tetrahidrocanabinol, elemento canabinóide responsável pelo efeito psicotrópico. Ou seja, qualquer argumento contra o cultivo do cânhamo industrial, relacionado à liberação ou estímulo ao consumo recreativo, é leviano, pois vai contra fatos cientificamente comprovados. Esse esclarecimento é imprescindível considerando os tabus e preconceitos envolvendo a cannabis. A falta de conhecimento e desinformação são as principais responsáveis pela letargia do Brasil em relação ao desenvolvimento da indústria legal da cannabis e seu ecossistema. E não se engane, estamos na contramão.

O relatório “Cânhamo Como uma Commodity Agrícola” (em tradução livre de “Hemp as na Agricultural Commodity”), elaborado para membros e comitês do congresso norte-americano pelo Congressional Research Service, divulgado em meados de 2018, já apontava mais de 30 países cultivando o cânhamo industrial como commodity agrícola, atuando ativamente no mercado global. Esse número certamente já é maior e facilmente dobra se levarmos em conta as regulamentações de cultivo apenas para o uso medicinal da cannabis, direcionadas para a produção de canabidiol (CBD), substância endocanabinóide também sem qualquer possibilidade de efeito psicotrópico.

O fato é que há muitos países que já abraçam a produção e exploração do cânhamo industrial. Todos eles de olho nos infinitos horizontes abertos pelas mais de 25 mil aplicações do cânhamo na indústria de transformação em nove submercados, incluindo os de insumos agrícolas, têxtil, automotivo, moveleiro, alimentos e bebidas, papel, materiais de construção e cuidados pessoais. Esse amplo leque de funcionalidades da planta impulsiona imensa demanda pela commodity, ou seja, poderia aquecer ainda mais as exportações brasileiras. Paralelamente, vai além e apresenta enormes oportunidades para o setor industrial brasileiro, tanto para oxigenar nossa cadeia produtiva quanto estimular a inovação. Basta ter uma estratégia séria, com ações de base estrutural para criação de ambiente mais favorável para o mapeamento de oportunidades e desenvolvimento de novos negócios.

Esse potencial reverbera como ondas até a ponta final, ou seja, no varejo de produtos à base de cânhamo. Tomando os Estados Unidos como exemplo, números da Associação de Indústrias do Cânhamo (HIA, da sigla em inglês) exibem crescimentos sucessivos nas vendas desses artigos desde 2011, e as altas passaram de 10% para mais de 20% nesse período. A Europa também sinaliza essa tendência.

Trata-se de um poderio econômico que não pode ser descartado pelo Brasil. Levantamento do Bank of Montreal indica que o mercado global do cânhamo pulará de US$ 18 bilhões para US$ 194 bilhões, com aumento de cerca de 1.000% no período de 2018 a 2026. Já o banco britânico multinacional Barclays estima panorama ainda melhor para esse setor, com perspectiva de movimentação de US$ 272 bilhões em 2028.

Petróleo, minério de ferro, celulose, cana-de-açúcar, milho, café, carne bovina, carne de frango e algodão. Cada uma dessas commodities gera bilhões de receita para o País anualmente. Isso sem falar da soja que, em 2020, chegará ao sexto ano seguido como principal exportação brasileira. Desde 2008, a representatividade das commodities na pauta de exportações do Brasil subiu de 42% para cerca de 70%. Além de capitalizar a economia, o bom desempenho delas suaviza o déficit da conta corrente nacional. Sem dúvida, os números compelem à ação e, para os agentes do meio político, resta a pergunta: por que não gerar empregos, impulsionar a indústria e faturar mais alguns bilhões por meio do cultivo do cânhamo industrial?

*Marcelo De Vita Grecco, cofundador e CMO da The Green Hub

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