O que seria do mundo?

O que seria do mundo?

José Renato Nalini*

08 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Dia da mulher, dia de reverenciar esta criatura que é a melhor parte do ser humano. Deus mostrou sua onisciência ao criar a companheira que completa o varão. O que seria do mundo se não houvera essa metade integradora?

Aprendi cedo a amar as mulheres. Evidentemente, minha mãe, a maior influência. Junto com ela, minha avó materna. Duas irmãs amigas e companheiras até hoje. Casei-me e minha mulher me presenteou com duas filhas, além dos dois meninos. Hoje, com sete netos, cinco deles são mulheres. Meigas, incríveis, inteligentíssimas.

No Ministério Público, aprendi a conviver com mulheres notáveis, como Zuleika Sucupira Kenworthy, a primeira mulher a ingressar no Ministério Público em toda a América. Na Magistratura, Luzia Galvão Lopes da Silva foi a primeira a integrar o Tribunal de Justiça, pelo quinto constitucional, classe Ministério Público.

Assim que na década de oitenta os concursos de ingresso à Magistratura passaram a acolher mulheres, hoje elas constituem parcela considerável e vão conquistando posições. A Presidente da APAMAGIS é uma mulher, a colega Vanessa Mateus. Os rançosos preconceitos desapareceram. Elas vencem e se mostram talentosas, vocacionadas e muito mais capazes de se aperceber da realidade, às vezes oculta na arena de astúcias do processo. Por isso e que Norman Mailer chegou a dizer: “Você não conhece nada sobre uma mulher, antes de encontrá-la num tribunal”. Juízas, promotoras ou advogadas que o digam!

Na Academia Paulista de Letras, que tenho orgulho em presidir pela quarta vez, as mulheres nos encantam: Lygia Fagundes Telles, Renata Pallottini, Ruth Rocha, Maria Adelaide Amaral. Perdemos há pouco Anna Maria Martins, um padrão acadêmico e de finesse. Já tivemos Ada Grinover, Tatiana Belinky, Myriam Ellis, Ruth Guimarães, Maria de Lourdes Teixeira. O melhor da literatura feminina brasileira.

Embora a mulher na literatura tenha sido às vezes objeto de jocosidade, ela contém a sensibilidade que o macho nem sempre consegue assimilar. Alexandre Dumas, por exemplo, escreveu que “a mulher, diz a Bíblia, foi a última coisa que Deus criou. Deve tê-la feito no sábado à tarde: sente-se a fadiga”. Mas não é verdade. Vê-se a perfeição da obra de um especialista.

Para Alphonse Karr, “a mulher, no paraíso perdido, mordeu o fruto da árvore da ciência dez minutos antes do homem; desde então ela leva, sempre, dez minutos de vantagem”. A vantagem é muito maior. Mulheres como Angela Merkel mostraram ao mundo a maneira correta de governar. É por isso que hoje se fala em convencer uma Luiza Trajano para se candidatar à Presidência em 2022. Mulher sabe por ordem na casa. Talvez em virtude da tríplice missão que dela ainda se cobra: administradora do lar, treinadora da prole e ainda tem de exercer a profissão de sua escolha.

Não foi fácil a luta pela sua emancipação. Prevaleceu durante muitos séculos, e hoje ainda reside na mentalidade tacanha, o asserto de Montaigne: “a ciência e ocupação mais útil e honrosa para uma mulher é o governo da casa”.

Por isso é que Charlotte Whitton afirmou: “faça o que faça, a mulher deve fazer duas vezes mais bem que o homem, para que a tenhamos em boa conta. Felizmente isso não é difícil!”.

Com a razão estão Djalal Ud-Din Rumi: “A mulher é o raio de luz divina” e Felix Lopes de Vega: “A mulher é o melhor do homem”. Por isso o Gênesis (1,13) consagrou: “ossos dos meus ossos, carne de minha carne; ela será chamada mulher”.

Simone de Beauvoir, mulher adiante de seu tempo e ainda hoje objeto de tantos estudos, declarou que “a mulher não nasce mulher: torna-se mulher”. Para Tolstoi, “a mulher é um tema inesgotável: quanto mais a estudamos, sempre encontramos novidades”. Já para Victor Hugo, “você mira uma estrela por dois motivos: porque ela é luminosa e porque é impenetrável. Você tem a seu lado um esplendor mais doce e um maior mistério: a mulher”.

Enfim, não há embate entre homem e mulher. Cada qual com sua singularidade, cada qual com seu papel. Falar das mulheres é um esporte que os homens costumam praticar. Mas sabem que é mero passatempo. Não é para valer. Porque “se todo o mal que se diz das mulheres for verdadeiro, elas estarão bem perto da perfeição” (Henri de Regnier).

Desde o século sexto antes de Cristo, louva-se o sexo feminino: “mulher bela é uma graça. Espanta melancolias. Consola mágoas de amor” (Livro dos Cantares). As Sagradas Escrituras a consideram “joia de ouro”, “a mulher virtuosa é a coroa de seu marido” e “o seu valor muito excede o de finas joias”.

O Novo Testamento retoma com ênfase a valorização da mulher, agora na figura de Maria, mãe de Cristo e da humanidade, esposa da Igreja e modelo de virtudes. O culto a Nossa Senhora Aparecida é alto tão entranhado no coração dos brasileiros que até os que não confessam a crença e se dizem agnósticos, chegam a fazer promessas à Virgem morena.

Dia da mulher, dia de muito carinho para com todas elas. Valorosas, determinadas, fortes. Mentira o que Shakespeare eternizou: “Fragilidade, chamas-te mulher!”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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