O que precisamos saber sobre o papel do neurocirurgião?

O que precisamos saber sobre o papel do neurocirurgião?

Feres Chaddad*

29 de maio de 2021 | 03h00

Feres Chaddad. FOTO: DIVULGAÇÃO

A Neurocirurgia é uma especialidade focada no atendimento a pacientes adultos e pediátricos no tratamento de dor ou processos patológicos que podem modificar a função ou atividade do sistema nervoso central (por exemplo, cérebro, hipófise e medula espinhal), o sistema nervoso periférico (por exemplo, nervos cranianos, espinhais e periféricos), o sistema nervoso autônomo, as estruturas de suporte desses sistemas (por exemplo, meninges, crânio e base do crânio e coluna vertebral) e seu suprimento vascular (por exemplo, intracraniano , vasculatura extracraniana e espinhal).

A área contempla o atendimento de condições complexas e vitais, permitindo não só o tratamento, mas que as capacidades produtivas e cognitivas dos pacientes sejam preservadas e até mesmo restabelecidas. As condições tratadas vão desde malformações congênitas neonatais à tumores benignos, problemas vasculares cranianos, além de traumas na cabeça e coluna, consideradas as principais causas de mortalidade por traumas na atualidade.

A evolução científica e clínica alçou a especialidade a ocupar um papel central no tratamento associado de diversas áreas da medicina, como ortopedia, ginecologia, oncologia, geriatria, pediatria e psiquiatria. Condições como a hérnia de disco cervical e lombar, doenças degenerativas da coluna; fraturas traumáticas de coluna, fraturas da coluna por osteoporose e dor crônica, usualmente necessitam da abordagem conjunta com o neurocirurgião.

Embora seja fundamentalmente uma disciplina cirúrgica, a neurocirurgia requer conhecimentos de neurologia, cuidados intensivos, cuidados de trauma e radiologia. Um número significativo de pacientes atendidos pelo neurocirurgião é tratado com opções não cirúrgicas que podem incluir terapias intervencionistas médicas, físicas ou minimamente invasivas.

O Neurocirurgião, por sua vez, precisa dominar em profundidade a anatomia do cérebro e do Sistema Nervoso Central, Periférico e Autônomo. Por esse motivo, a Neurocirurgia é considerada uma das áreas de especialização mais complexa da medicina na atualidade, exigindo cerca de 15 anos de treinamento, estudos e prática. Assim, um neurocirurgião pode praticar neurologia, mas um neurologista não pode fazer cirurgias.

Por ser uma especialidade jovem, a neurocirurgia está evoluindo rapidamente. Uma tradição importante no campo é a rápida evolução científica, disseminação de novas idéias e técnicas e tecnologia. Os constantes avanços exigem que os neurocirurgiões perpetuem uma lógica de aprendizado contínuo, atualização de conhecimentos científicos e habilidades.

Parte importante dessas atualizações se deram durante a pandemia do novo coronavírus, quando neurocirurgiões tiveram a curva de aprendizado ainda mais intensificada, assumindo com grande ênfase o cuidado neurológico crítico de pacientes com COVID-19. Para além do diagnóstico e os protocolos de tratamento de pacientes com o vírus, os profissionais precisaram estar atentos à avaliação de doenças neurológicas, como acidente vascular cerebral, estado epiléptico, doenças neuro imunes e neuromusculares, muitas delas decorrentes de sequelas do próprio vírus, que ainda estão sendo estudadas pela comunidade científica.

Além do cenário pandêmico, o aumento da expectativa de vida e o estilo de vida moderno leva ao surgimento de novos desafios e condições neurológicas, que exigem abordagens cirúrgicas importantes. Um grande exemplo é o aumento no número de quadros de AVCs, que de acordo com alguns estudos internacionais, deve tornar-se a principal causa de morte nos países em desenvolvimento durante a próxima década. A neurocirurgia irá desempenhar um papel vital no combate tanto o derrame hemorrágico quanto o isquêmico, bem como os problemas ainda relativamente não resolvidos de distúrbios da coluna e dor no mundo em desenvolvimento.

Todos esses dados reforçam a importância cada vez mais significativa da neurocirurgia nos cuidados mais diversos com a saúde da população e sua evolução etária. No dia Nacional do Neurocirurgião é imprescindível compreendermos e divulgarmos a relevância desses profissionais. Também é essencial e urgente nos atentarmos para o grande valor da educação médica continuada, assim como instituições e programas de ensino de qualidade, fundamentais para que mais profissionais possam seguir o extraordinário caminho da neurocirurgia, fazendo da medicina de excelência a sua ferramenta para salvar vidas.

*Feres Chaddad é professor titular e chefe da disciplina de Neurocirurgia da Unifesp e também chefe da Neurocirurgia da Beneficência Portuguesa de São Paulo

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