O que posso exigir de mim?

O que posso exigir de mim?

José Renato Nalini*

04 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Quem estava preparado para vivenciar a situação em que o mundo se encontra e na qual o Brasil está entre os piores?

No ritmo atual, não é difícil chegar a trezentas mil mortes e se acostumar com esse crescimento, como se fora algo natural e inevitável.

Quantas micro-histórias não se perdem nessa voragem letal! Quantas sequelas restarão pela intempestividade com que a morte ceifa indiscriminadamente, deixando vazios em milhares de famílias.

O que se esperaria de quem está a assistir à tragédia?

É difícil manter serenidade e nutrir a esperança, quando se constata que tudo poderia ter sido ao menos mitigado. A noção de que houve omissão, por ignorância ou deliberada, resultará em consequências concretas? Elas terão o condão de trazer de volta as centenas de milhares de mortos?

Entre o desespero e a alienação, é sensato abeberar-se na filosofia. Não naquela sofisticação de minúcias e metáforas, sempre a necessitar de um decodificador que extraia sentido e inteligibilidade, sem o que o comum dos humanos nunca teria acesso à criação dos predestinados.

Não. O ser humano precisa estar atento ao contexto em que lhe foi dado existir. Algumas décadas, apenas, num lapso temporal sobre o qual ele não tem controle. Constatando que o élan vital é algo quase intangível, de tão frágil e efêmero. Somos vulneráveis. Somos finitos. Somos carentes.

É-nos exigido atentarmos para aquilo que nos cerca. Não podemos ignorar o que se passa, nem perder a capacidade de indignação. As circunstâncias que nos conduziram ao confinamento, à restrição de hábitos triviais, a repudiar o convívio e a sentir verdadeiro pânico, são uma espécie de cordão umbilical que nos vincula ao restante do universo.

É o nosso ponto de partida, são elos em nosso itinerário. Como consagrou Ortega y Gasset, “eu sou eu e minha circunstância”. Não posso conceber-me a mim mesmo, sem ao mesmo tempo considerar as circunstâncias. O homem é um “ser circunstancial”. Não nos é dado resignar a que nosso ser real se converta numa abstração pura. Nem são abstrações puras os mais de duzentos e sessenta mil semelhantes que perderam a vida para a Covid19.

Seria auspicioso que a crueza da fatalidade, se de fato nos poupar, revertesse em uma revisão dos valores. Não no discurso, que nele a hierarquia observa os cânones prestigiados. Todos se consideram honestos, bons, sensíveis, generosos, verdadeiros padrões de excelência moral. Mas na prática rotineira, adequar o discurso à conduta. É nítida a linha divisória entre ação e pensamento. Não há identidade entre o que proclamamos e o que fazemos. Nem seria viável estabelecer absoluta coerência entre o propósito e sua conversão em realidade.

Motivo para que a consciência nos ajude a encontrar a humildade. O reconhecimento de nossa impotência, diante de circunstâncias adversas que nos conduziram a um vale de lágrimas, cada vez mais profundo, e do qual não se vislumbra caminho de volta.

Temos consciência de nos ter sido reservado estar na Terra numa pavorosa crise histórica? Ser-nos-á dado assimilar a incontestabilidade de nossa insignificância? A vida humana está longe de ser a única realidade do universo e sequer é a mais importante. Está sob risco permanente e cada vez mais grave e perigoso, por força da própria e inclemente ação humana.

Nada obstante, a vida é a única realidade com que podemos contar. Ela ocorre, acontece, em cada um de nós. Como dizia Ortega, a vida é um gerúndio: um “faciendum” – e jamais um particípio – um “factum”. Isso é o que nos impõe prosseguir: nossa existência, “ao invés de ‘ser’ alguma coisa já feita, é alguma coisa que temos que fazer – ou que fazer-nos – incessantemente. A vida humana é, em suma, um ser que se faz a si mesmo”.

Esse “fazer” está a reclamar postura corajosa, embora humilde, para sobreviver à pandemia e às outras pestes que com ela convivem neste momento histórico. As situações presentes são como páginas de um livro que lemos e vamos arrancando, para que nos livremos do que elas nos transmitem. Não somos observadores, mas protagonistas. Não podemos imitar o “não me importa”, “não me interessa”. Ao contrário, temos de ouvir o “atua como tens que atuar” ou “sê o que és”.

Cabe a nós descobrir o que somos e, depois, atuar como teríamos de fazê-lo, em decorrência dessa descoberta.

Não é fácil. Somos indulgentes para conosco mesmos. Concluir que não correspondemos à nossa autoimagem é frustrante. Mas é o que se deve fazer sempre. E, com razão maior, em tempos terríveis como os que agora enfrentamos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.