O que podemos aprender com o discurso viral de AOC?

O que podemos aprender com o discurso viral de AOC?

Aline Mendes e Patrícia Florêncio*

29 de julho de 2020 | 07h00

Aline Mendes e Patrícia Florêncio. Foto: Divulgação

Parece impensável em pleno século XXI uma congressista ser insultada por um colega deputado nas escadarias do Capitólio, sede do Legislativo americano, diante de representantes da imprensa.

“Vadia do caralho”, “nojenta”, “maluca” foram alguns xingamentos que o deputado republicano Ted Yoho teria dirigido à democrata Alexandria Ocasio-Cortez, conhecida por AOC. No dia seguinte, sem mencionar o nome da colega, Yoho afirmou que as expressões ofensivas atribuídas a ele nunca foram ditas e se defendeu dizendo que é casado há 45 anos e tem duas filhas.

De origem latina, a mais jovem congressista da história dos Estados Unidos contrariou a normalidade: não se calou. Aliás, não foi o fato em si, mas a declaração de Yoho que levou AOC a se pronunciar. No Plenário do Congresso, denunciou os abusos sofridos por mulheres em um discurso contundente. Em dez minutos, pontuou que não se trata de um incidente isolado, mas de uma questão cultural: “É uma cultura de impunidade, da aceitação da violência e linguagem degradante contra as mulheres em uma estrutura de poder que dá apoio a isso”. E destacou que não poderia aceitar que vítimas de abusos verbais ouvissem aquelas justificativas e presenciassem o Congresso aceitá-las como legítimas.

Por fim, AOC acusou o republicano de estar usando a família como “escudo”. Sustentou que “ter uma filha não torna um homem decente. Ter uma esposa não torna um homem decente. Tratar as pessoas com respeito e dignidade torna um homem decente”.

O episódio chama a atenção para a cultura machista enraizada nos diversos espaços de poder. Assim como nos Estados Unidos, este tipo de agressão também é profundamente comum por aqui, inclusive com casos de grande repercussão envolvendo parlamentares e jornalistas. Outros, no entanto, não vêm a público, embora sejam igualmente danosos.

Em um trabalho recente, realizamos entrevistas com mulheres que atuam no serviço público em diversas partes do país. Há relatos de machismo impregnado em frases como: “você é filha/esposa de quem?”, “moça bonita tem lugar à mesa” e também em situações em que a mulher precisa erguer a voz para ser ouvida ou não ser interrompida em uma reunião.

Talvez, por isso, o discurso de AOC tenha se tornado viral. Embora ela tenha sido criticada pelo New York Times, por usar seus detratores para ampliar sua própria marca política, nós, mulheres, nos sentimos representadas pela congressista, uma vez que já tivemos de lidar com isso em alguma circunstância de nossas vidas, afinal “a linguagem não é novidade”. E endossamos as palavras de Monica Hesse, em sua coluna no Washington Post: “Pelo menos na questão da misoginia, seu discurso de quinta-feira foi o discurso de uma vida.”

Embora tenham sido publicadas em “Sobrevivi… posso Contar” em 1994, 26 anos atrás, as palavras de Maria da Penha, parecem mais atuais do que nunca: “Dizem que somos más motoristas, que gostamos de ser agredidas, que devemos nos restringir à cozinha, à cama ou às sombras”. Graças a sua história, temos uma legislação que nos protege, com destaque ao capítulo II, artigo 7º, que mostra que há outros tipos de violência além da física.

É fato, sozinhas não podemos mudar a sociedade. Como bem disse Malala Yousafzai, a mais jovem Nobel da Paz da História: “Na luta pela igualdade de gênero, o homem tem um papel a desempenhar.”

E você, qual papel quer desempenhar?

*Aline Mendes é jornalista e assessora parlamentar de comunicação. Patrícia Florêncio é gestora pública e mestre em e-gov e inovação. Ambas são cofundadoras da Rede Mulheres Públicas, formada por mulheres que atuam com impacto público – primeiro, segundo e terceiro setores -, com olhar atento ao serviço público e seus desafios de gênero.

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