O que Obama não entendeu?

O que Obama não entendeu?

Carlos Fernando dos Santos Lima*

23 de novembro de 2020 | 10h55

Carlos Fernando dos Santos Lima. FOTO RODOLFO BUHRER/ESTADÃO

“Minha esperança é que o trauma político recente possa levar a um tipo diferente de política e que uma nova geração de brasileiros possa liderar esse caminho”. Com essa mensagem de esperança, o ex-presidente americano e uma das pessoas mais lúcidas e esclarecidas da atualidade, Barack Obama, terminou sua entrevista sobre a situação política do Brasil para um jornal nesta semana.

Esse otimismo, mesmo após reconhecer a persistência de profunda corrupção sistêmica no Brasil, entretanto, encontra-se em aparente forte contradição com os resultados das urnas desta última eleição para prefeito. Há que se reconhecer que esta eleição foi marcada pela confirmação do poder local de velhas lideranças políticas, a maior parte delas ancoradas em partidos que estavam envolvidos nos escândalos de corrupção descobertos pela operação Lava Jato, como aqueles que fazem parte do famigerado Centrão, ou que lideraram a resistência legislativa às mudanças, como o Democratas.

É claro que a nova geração a que se refere Obama não pode ser confundido com os oportunistas que surfaram a onda anticorrupção em 2018. Primeiro, chamar de novo alguém como Bolsonaro é esquecer a sua carreira obscura como político – e ter uma carreira longa e insignificante como parlamentar não credencia ninguém a ser uma esperança para o país; segundo, pelo menos boa parte dos eleitos à época tratavam-se de arrivistas sem qualquer comprometimento com qualquer causa a não ser a do próprio sucesso. Até mesmo aqueles realmente novos e comprometidos com a causa anticorrupção possuem uma visão aristocrática do poder, como se política devesse ser feita apenas por quem tem recursos próprios, ou seja, os ricos.

A verdade é que a reação coordenada por Tóffoli e Maia atingiu o seu objetivo de destruir a esperança da população em uma política mais limpa, em eleições mais baratas, em partidos mais democráticos e diversos e em uma administração pública sem o câncer da corrupção. O resultado está aí: eleições com altíssimo índice de abstenção, nulos e branco e com pouquíssimo entusiasmo com seus resultados, salvo apenas pela satisfação de alguns em desfazer de Bolsonaro, imputando-lhe boa parte do fracasso de quem foi por ele apoiado.

A verdade é que nestas eleições, além de se caracterizarem por sua natureza local, foram dominadas pelo poder político das velhas elites, detentoras dos canais de atendimento clientelista nos municípios brasileiros. Não houve, salvo claramente em relação ao bolsonarismo e ao petismo, uma rejeição a qualquer partido ou movimento, quanto mais à nova política, mesmo porque esta pouco se apresentou. Os poucos exemplos de novos rostos na disputa de prefeituras, o de Boulos em São Paulo e de Manuela em Porto Alegre, se devem exclusivamente ao ranço do lulopetismo mesmo entre a esquerda, que realmente a novos atores e tendências políticas.

Há muito a ser feito para romper esse ciclo vicioso da política brasileira e confirmar a esperança de Barack Obama. Para isso precisamos urgentemente de uma reforma política. Para trazer lideranças da sociedade civil para a política é preciso democratizar os partidos, fazendo com que deixem de ser feudos de caciques e fazedores de dinheiro ilícito. Além disso, é preciso que os fundos públicos usados pelos partidos sejam distribuídos de forma equânime. De outra maneira o que veremos será o contínuo domínio das oligarquias partidárias como nessa eleição. Infelizmente são estas que estão encarregadas de fazer as leis, e as fazem para deixar tudo exatamente como está. E não há nada a ser comemorado nisso.

*Carlos Fernando dos Santos Lima, advogado e procurador da República aposentado

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