O que o mundo espera do Brasil?

O que o mundo espera do Brasil?

José Renato Nalini*

06 de junho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Alentador o tom da fala de John Kerry, personalidade que o presidente Joe Biden escolheu para comandar a política ambiental da Casa Branca. Ele diz que o Brasil é uma das 10 maiores economias do mundo e exerce natural liderança regional. Por isso, o país tem de assumir a responsabilidade de liderar um processo de reversão do extermínio do verde e da biodiversidade em nosso território.

O czar do clima anuncia que os Estados Unidos acompanharão de perto aquilo que o Brasil fizer em relação à floresta amazônica e aos demais biomas, Tão sacrificados nos últimos anos.

Sabe-se que não é seguro confiar em acenos e promessas, tão distantes da realidade praticada. A exigência de resultados concretos entrou na agenda norte-americana e valerá de fato para consolidar a recuperação da credibilidade brasileira, tão afetada com o desastre imposto ao Itamarati, por uma visão tacanha e retrógrada da geopolítica atual. “As palavras devem ser apoiadas pela ação concreta a curto prazo”, diz Kerry. Serão as ações e os resultados delas que mostraram a credibilidade dos compromissos assumidos pelo governo. um país que detém 60% da floresta amazônica em seu território, não pode frustrar o mundo civilizado, continuando a exterminar esse patrimônio gratuitamente ofertado pela natureza ao ser humano, que tem sido não apenas negligente, mas um cruel destruidor daquilo que não construiu. as consequências da omissão e da deliberada atuação contrária a biodiversidade já produziram efeitos deletérios na mutação climática. a ciência adverte de que talvez já tenha sido ultrapassado o ponto de inflexão.

O Brasil tem noção exata do que isso representa. Décadas atrás, pensadores sensíveis e sensatos edificaram uma teia normativa consistente e eficaz para a tutela ecológica. Lenta, gradual e complexa construção de uma arquitetura reconhecida por seu pioneirismo e qualidade por todo o planeta. Esse capital ecológico não pode ser sumariamente eliminado do cenário brasileiro.

Os Estados Unidos conseguiram virar a página de horror ecológico da era Trump. A China assumiu o compromisso de reduzir a emissão de carbono, o que é um fato alvissareiro. O encontro preparatório de líderes, a Cúpula de Líderes sobre o Clima, com vistas à Conferência climática da ONU a ser realizada Glasgow em novembro, evidencia a seriedade com que o mundo enxerga a complexa questão do aquecimento global. E não é assunto privativo de governos. O próprio John Kerry se propõe a acionar um processo de busca de todos – governos indivíduos sociedade civil instituições e empresas privadas- para que a liderança na resolução da crise climática seja coletiva, difusa e coesa.

Dentre as medidas concretas a serem tomadas pelo governo brasileiro, para evidenciar a sua intenção de dar meia volta na política ambiental, figura a urgência de reestruturação dos organismos preordenados à tutela ambiental. De preferência, revogando as exonerações dos cientistas e técnicos que se opuseram ao desmanche de tais estruturas, ou aos desmanches insanos de quem ousou, na contramão da ética ambiental, de atuar contra a natureza.

Mais ainda, é preciso ouvir e levar a sério as comunidades tradicionais, os povos indígenas, a Universidade e o terceiro setor que, a despeito da hostilidade manifesta dos últimos tempos, continuaram na sua heroica posição de defensores da natureza e da biodiversidade.

Uma crise sem precedentes sugere também a adoção de táticas pioneiras. o capital Internacional detectou a gravidade da situação e assimilou o conceito ESG. Ele estimula medidas ambiciosas, que fujam ao trivial e incluam o setor privado, com toda a sua expertise em vencer desafios. Mas é preciso agir depressa. Urgência que significa também uma incrível oportunidade econômica. No momento em que se perceber que a Amazônia é um potencial de valor incalculável, desde que preservada, o interesse do capitalismo será um motor de transformação da cultura planetária. Repita-se o truísmo corriqueiro: floresta em pé dá lucro; floresta derrubada é sinônimo de caos, deserto e morte.

O recado do ex-secretário de Estado de Barak Obama é muito claro: os Estados Unidos esperam ver um progresso claro para concretizar o compromisso de acabar com o desmatamento ilegal, incluindo medidas tangíveis para aumentar a fiscalização, além de fortes sinais de que desmatamento ilegal e invasão não serão tolerados.

Importante é o reconhecimento de que a falta de ação climática do governo federal dos EUA nos últimos quatro anos, fez com que a nação recuasse. Mas também foi notável que o setor privado e a sociedade civil ali continuaram a progredir. Que isso também ocorra no Brasil, cuja militância ambiental e ativismo ecológico já mostraram seu poder de persuasão e a prerrogativa de alterar o rumo de nefastas tentativas de persistir no retrocesso.

A opinião pública é o grande farol que deve iluminar a atuação governamental. O recrudescimento da Situação climática gerou um despertar da consciência mundial, fenômeno o que repercute no Brasil e ganhou força com o interesse evidenciado pelo setor empresarial e financeiro.

Imprescindível a continuidade e intensificação da educação ambiental, impregnada de uma sólida ética ecológica, nutriente sem o qual, transitórios ocupantes de cargos de mando estatal podem por a perder um capital intangível, resultante de sacrificada caminhada comunitária através dos tempos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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