O que o mercado tem feito com o lixo eletrônico?

Guille Freire*

17 de outubro de 2018 | 04h00

Em 2017, a Universidade das Nações Unidas, parte da ONU, e a União Internacional de Telecomunicações divulgaram um relatório sobre o lixo eletrônico descartado no mundo. Foram 44,7 milhões de toneladas geradas em 2016 – um crescimento de 8% desde 2014. Até 2021, as previsões indicam que esse índice aumentará para 17%, chegando a 52,2 milhões de toneladas geradas. Dados do “Global E-waste Monitor 2017”, revelaram que apenas 20% dos resíduos eletrônicos de 2016 foram reciclados.

O Brasil é o sétimo maior produtor de lixo eletrônico do mundo, com 1,5 mil toneladas por ano. Em 2018, cada um de nós deverá descartar pelo menos 8,3 quilos de eletrônicos. Já sabemos que no lixo eletrônico é possível encontrarmos ouro, prata, cobre, paládio e diversos outros materiais recuperáveis, que podem gerar uma economia de bilhões ao ano. E as baixas taxas de reciclagem podem impactar mais ainda a economia de um país que já se encontra em uma crise tão dolorosa.

Além disso, temos uma questão mundial extremamente importante, que é a preservação ambiental. De acordo com Houlin Zhao, secretário-geral da União Internacional de Telecomunicações (UIT), a proteção do meio ambiente é um dos três pilares do desenvolvimento sustentável. A gestão do lixo eletrônico é uma questão urgente no mundo digitalmente dependente de hoje, onde o uso de aparelhos eletrônicos está aumentando.

E o smartphone tem papel fundamental nesse cenário. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em vigor desde 2010, cria responsabilidades e obrigatoriedades com relação à destinação correta de resíduos, incluindo o lixo eletrônico. Porém, o nível de reciclagem deste tipo de resíduo ainda é muito baixo. O Brasil conta com poucos centros de reciclagem de aparelhos celulares, e o resultado disso são milhões de celulares velhos estocados em residências ou descartados no lixo comum.

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) registrou, em março de 2018, um total de 283,4 milhões de aparelhos de telefonia móvel em funcionamento. E esses números só crescem. Todos os anos saem novos modelos. Antes, a frequência de troca de aparelhos era de quatro anos, agora os consumidores trocam de modelo entre um ano e um ano e meio. Como consequência desse cenário, o descarte de celulares velhos no Brasil é altíssimo, ultrapassando o volume de 1,4 milhão de toneladas por ano.

Por outro lado, a divergência entre o número de pessoas que trocam de smartphones ano a ano e aquelas que não têm a mínima condição de comprar um celular novo no Brasil é paradoxal. Cerca de 50 milhões de brasileiros compram novos modelos anualmente. Na outra ponta da balança, porém, mais de 100 milhões de pessoas não têm poder aquisitivo suficiente para fazê-lo.

Comprar celulares usados de pessoas das classes A e B, que mantêm o smartphone do ‘momento’, e revendê-los com até 70% de desconto para as classes C e D, que não conseguem comprar um aparelho novo devido ao alto valor dos produtos, é um modelo de negócio que vem crescendo em países emergentes. No ano passado, vendemos mais de 300 mil unidades de smartphones seminovos e, nesse ano, nossa expectativa é dobrar esse número.

O recomércio surge – e ganha força – como uma solução sustentável e econômica para o usuário do celular. Similarmente ao que acontece no mercado de carros seminovos, no momento em que você tira o carro da concessionária, ele perde valor. Com o celular, a situação é a mesma, pois existe muita rotatividade.

É uma solução que muitos brasileiros encontraram diante da crise e que se mostra como tendência para um mundo mais sustentável, pois traz benefícios econômicos para a sociedade, contribui para a redução de lixo eletrônico e para o consumo consciente, consequentemente beneficiando o meio ambiente. Pense nisso e faça a compra certa.

*Guille Freire, CEO da Trocafone

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