O que o futuro reserva para a economia e para a sociedade brasileira?

O que o futuro reserva para a economia e para a sociedade brasileira?

Marcelo Fonseca*

17 de fevereiro de 2021 | 11h00

Marcelo Fonseca. FOTO: DIVULGAÇÃO

Desde o início da pandemia, muito se fala sobre os impactos que ela trará a longo prazo nos mais diversos setores do país, além da saúde. Agora, no início de 2021, temos a sensação de que não evoluímos e estamos empurrando para frente o calendário de 2020, com os mesmos problemas e sem nenhuma perspectiva de melhoria – devemos ter um primeiro semestre bastante parecido ao que vivemos no ano passado.

A chegada da segunda onda, e o colapso em hospitais em algumas regiões do país, trará ainda mais consequências para a já combalida atividade econômica. Para os comerciantes, por exemplo, o retorno para fases mais restritivas da quarentena não poderia ter vindo em pior hora. Estima-se que as vendas do comércio nacional tenham desabado em 10,3% na semana das festas natalinas – quando os casos de Covid-19 voltaram a aumentar – o pior desempenho já registrado da série histórica iniciada em 2003, de acordo com a Serasa Experian.

Outro ponto sensível, e que precisa ser visto com muita atenção, é o fim do auxílio emergencial concedido pelo governo federal. Apesar do gasto extraordinário, foi essa ajuda, para mais de 66 milhões de brasileiros, que não travou totalmente a economia. Sem isso, poderemos vivenciar uma nova queda e ter mais de 20 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema.

Não está claro se o governo estenderá o auxílio e quais serão os próximos passos. Muitas perguntas seguem em aberto sobre como ficará a dívida pública caso ingressemos em uma duradoura “segunda onda”. Ainda não há um plano para reequilibrar as contas públicas e ajudar a sociedade e empresas, mas espera-se ansiosamente que o Ministério da Economia apresente soluções sustentáveis visando dar credibilidade e capacidade do governo de pagar sua dívida.

É uma situação bastante delicada, pois a ajuda social traz impactos nas questões fiscais, mas não se pode deixar de ajudar visando apenas um lado desse impasse. Por outro lado, para poder aliviar o fiscal e contribuir com o social, o governo teria que trazer algumas medidas, mexer não só na reforma, mas também em subsídios, entre outras necessidades. Mas enquanto isso, essa agenda de reformas segue parada.

Infelizmente, ainda convivemos com um número inacreditável de perdas humanas e só haverá visibilidade razoável sobre o futuro quando o programa de vacinação em massa da população se inicie. Mas a sinalização é de que isso ainda demore a acontecer devido à falta de planejamento na compra de imunizantes, insumos e na logística de entrega. O que vemos, ainda, é uma imunização simbólica, embora o país já tenha ultrapassado a marca de mais de 1 milhão de vacinados.

Temos visto que Europa e Estados Unidos já vivenciam momentos amargos com o repique da pandemia e definindo novos lockdowns. Mas, diferente desses países, nós que não estamos nem entre as dez maiores economias do mundo, sofreremos ainda mais com a crise sanitária e com as restrições de pequenos negócios. Afinal, 99% dos estabelecimentos do país são formados por micro e pequenas empresas, de acordo com o Sebrae, que respondem por mais da metade (52%) dos empregos com carteira assinada no setor privado.

E, por falar em PMEs, há uma movimentação do Sebrae para que o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) retome como iniciativa permanente em 2021. Embora se discuta que a disponibilidade de crédito, aliada à política de aumento da produtividade, possam ser a saída para a recuperação das micro e pequenas empresas, ainda não há espaço para se falar em aumento de produtividade quando empresas pleiteiam programas do tipo “refis” e prorrogação da suspensão de contratos de trabalho.

Apesar do cenário apocalíptico que tem se pintado à nossa frente, vale ressaltar que a economia brasileira já vinha fragilizada na última década. Com tudo isso – e com as novas informações que não param de chegar – o que podemos esperar para um futuro próximo?

Analistas não se cansam de afirmar que o país necessita fazer reformas profundas, como por exemplo a tributária e a administrativa. Da mesma forma, paira sobre o país o espectro do descontrole fiscal, que poderá trazer consequências graves para a economia ressuscitando inclusive o dragão da inflação. Há um consenso de que estes assuntos devem ser enfrentados o quanto antes. No final das contas percebe-se que estes problemas (teto de gastos, custo do funcionalismo, estrutura tributária injusta) são na verdade subprodutos de um problema maior, este sim central: o Brasil (aqui representado pelos indivíduos eleitos pela sociedade) não enfrenta seus problemas, os posterga até o limite. Os que não se fazem representar através de grupos de interesse ficam no fim da fila. Mas, no limite, as consequências pela protelação recairão sobre todos.

*Marcelo Fonseca é sócio e economista da HLB Brasil

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.