O que nos espera em 2022?

O que nos espera em 2022?

José Renato Nalini*

09 de janeiro de 2022 | 16h10

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Por mais que nos entusiasmemos, não é prudente acreditar que a pandemia acabou. Ela continua aí. Novas cepas surgirão. A vacina terá de ser um compromisso crônico daqui para a frente.

A euforia pelo retorno às atividades presenciais arrefeceu, ao menos no mundo civilizado. Haja vista que o encontro em Davos, sede do Fórum Econômico Mundial já foi adiado. Não seria uma recomendação para se repensar Carnavais e outras aglomerações?

O Brasil volta a conviver com inflação, fenômeno que as novas gerações não conheciam, mas seus pais não esquecem. E não é pouca, principalmente para os pobres. Embora se diga que ela não chegou aos dois dígitos, economistas confiáveis falam que ela chega a 25% num período relativamente curto de doze meses.

Isso deveria nortear os que têm as rédeas do país nas mãos e são pagos pelo povo sofrido para cuidar das políticas públicas. Eles bem que poderiam dar um exemplo e renunciar aos seus salários, ou ao menos reduzi-los. Houve um tempo no Brasil – acreditem, crianças! – a vereança era um exercício nobilitante, como ser jurado, trabalhar nas eleições, algo cuja remuneração era simbólica.

Quando foi que o exercício do Legislativo passou a ser profissão? E profissão de prestígio, tamanha a força com que se digladiam nos períodos pré-eleitorais, para conquistar ou reconquistar a confiança do eleitorado.

Isso é ficção – acreditar que o legislativo volte a ser uma função “pro bono”, em benefício do Brasil, e não do bolso dos eleitos. Mas ao menos acabar com os Fundos Partidário e Eleitoral, isso poderia ser feito. Seria um tento rumo à reconstrução da esperança, de que o Brasil anda tão carente.

Por que destinar seis bilhões para campanhas? Os candidatos já movimentam suas redes sociais e se fazem conhecer pelos votantes, independentemente do gasto absurdo com propaganda. Aquela hipocrisia da “propaganda gratuita”, regiamente paga pelo povo. Sempre este é que fica com a conta. A cada ano mais salgada.

Como seria bom se em lugar de pensar em eleição e na maldição chamada reeleição, os políticos pensassem no povo. Como conciliar o agro, que é pop, que é tudo, com a fome de mais de vinte milhões de brasileiros? Como fazer com que a euforia fanática enxergasse o crescimento da violência, do desemprego, do descrédito, da miséria e da exclusão?

Será demais sonhar com um Brasil que cumpra a Constituição, bastando a observância estrita de apenas três, de seus inumeráveis artigos, que vão crescendo ao longo do tempo com inserção de todo o alfabeto…

Bastaria o cumprimento do artigo 5º, a cornucópia de direitos fundamentais, que têm a contraface dos deveres. A cada direito corresponde um dever de assegurá-lo. Muitos deles dependem de uma ficção chamada “governo”, estrutura mantida com o sofrido e minguado dinheiro do povo.

Outro artigo é o 205. Fala da educação em “direito de todos”, mas em dever “do Estado e da família, em colaboração com a sociedade”. Quem está dispensado de educar? Ninguém. Todos educam ou, não raro, deseducam. Com seus maus exemplos. Com sua insensibilidade. Com sua arrogância. Com o apego doentio ao dinheiro, como se não fosse atribuído a cada ser humano apenas algumas décadas para fazer com que sua passagem pelo planeta não tenha sido completamente inútil.

Educação que não significa a decoreba anacrônica e necrosada da maior parte das escolas. Educação que faz desabrochar as potencialidades do ser humano, para que ele atinja a plenitude possível. E que o qualifique para o trabalho e o capacite para o exercício da cidadania. Isso existe? Ainda não. Promessa descumprida.

O terceiro artigo é o 225. Foi o constituinte tupiniquim que o elaborou, a mais bela norma fundante do século XX. Mas nós nos recusamos a cumpri-lo. É nossa responsabilidade tutelar o ambiente para as atuais e futuras gerações. E o que fizemos? Exterminamos a floresta, incendiamos o pantanal, continuamos a agredir todos os biomas, inclusive o remanescente do que foi a maravilha da Mata Atlântica.

Só por milagre o Brasil oficial encararia o Brasil real, da pobreza crescente, da miséria avassaladora, da violência nefasta, da falta de educação, de perspectivas e de esperanças.

Mas como o homem sonha e é teimoso, não custa insistir nas necessidades tão flagrante, mas tão ignoradas por quem recebe seus vencimentos de um povo cada vez mais pobre e cada vez mais desalentado. Reajamos, brasileiros de boa-vontade! Eles ainda existem! Precisam, é, se arregimentar e não perder a capacidade de indignação.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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