O que não pode ser esquecido

O que não pode ser esquecido

José Renato Nalini*

15 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O famoso escritor T.S.Eliot, Thomas Stearns Eliot (1888-1965), foi um poeta, dramaturgo, filósofo e ensaísta norte-americano, que falava em “coisas permanentes”, aquelas que merecem preservação.

O mundo atual parece ter-se esquecido dos ensinamentos do ganhador do Nobel de Literatura em 1948, cujo poema “Waste Land” é ainda hoje fonte de inspiração para os amantes da literatura.

A modernidade é prenhe de erros ideológicos. De fanatismos e de exageros que repudiam o recado grego: “nada em excesso”. Por isso é que pensadores como Arnold J. Toynbee (1889-1975), o grande estudioso das cidades, chamavam seu tempo de “período de desordem”. Aquilo que se considerou o “breve século 20”, que teria tido início com a Primeira Guerra Mundial, em 18 de julho de 1914, e terminado com a dissolução da União Soviética, em 9 de dezembro de 1991. O historiador Eric Hobsbawn (1917-2012) chamou esse lapso secular de “Era dos Extremos”, enquanto o historiador católico Paul Johnson (1928), ainda vivo e em atividade, atribui a turbulência do século passado ao declínio dos valores tradicionais cristãos, substituídos por ideologias seculares de esquerda ou de direita.

Para onde vão os valores, é a pergunta que filósofos continuam a fazer, e que não obtém resposta única ou definitiva. O vendaval das ideologias fez com que bens da vida considerados infinitos se tornassem miragem.

Entretanto, foram essas ideologias que fizeram proliferar guerras, revoluções, genocídios, crises econômicas, degradação da natureza, depauperamento cultural, relativismo e falência moral. É o que se encontra, bem esmiuçado, no livro “Tempos Modernos: O Mundo dos anos 20 aos 80”, de Paul Johnson. O instigante pensador G.K.Chesterton (1874-1936), em seu livro “Ortodoxia”, falou em “democracia dos mortos”, para dizer que não podemos esquecer as lições dos que nos antecederam.

Não custa recordar que o pensamento dos que já passaram ainda nos governa, queiramos ou não. É aquilo que Edmund Burke chamou de “contrato primitivo da sociedade eterna”, verdadeira aliança que une todos os seres humanos em um pacto imortal, “feito entre Deus e a humanidade e entre as gerações que desapareceram da Terra, a geração que ora vive e as gerações ainda por chegar”, em seu livro “Reflexões sobre a Revolução na França”.

Uma corrente de pensamento procurou ressuscitar as tradições, na certeza de que elas ajudariam a debelar o cenário de um “mundo antagonista de loucura, discórdia, vício, confusão e vão pesar”, na linguagem do escritor norte-americano Russell Kirk (1918-1994). Ele foi, para os Estados Unidos, o que Edmund Burke (1729-1797) foi para o conservadorismo britânico.

Sua erudição e prolífica produção conquistaram inúmeros autores e um dos livros mais interessantes por ele escritos foi “A Política da Prudência”. Vale a pena ser lido por aqueles que às vezes se desesperançam quanto ao futuro do planeta.

Russell Kirk tornou-se um ícone do pensamento conservador nos Estados Unidos, mas manteve a vida de um homem simples e austero. Não se deixou seduzir pela riqueza material. Cultivou vivência intelectual pura, na tranquilidade do convívio com a natureza, numa pequena vila chamada Mecosta, ao noroeste de Michigan. Ali, durante quase cinquenta anos, escreveu e plantou centenas de árvores, preservando a paisagem para as gerações do porvir. Dizia que sua vida modesta respeitara a sua “graça natural da existência”.

Numa correspondência ao editor Henry Regnery (1912-1996), ele dizia: “A pobreza nunca me incomodou; posso viver com quatrocentos dólares por ano, se for preciso. Tempo para pensar e liberdade de ação são-me muito mais importantes no presente que qualquer possível vantagem econômica. Sempre tive de viver à custa de meus esforços, sofrendo a oposição, e não tendo o amparo, dos tempos e dos homens que conduzem as coisas, e não me importo em continuar dessa maneira”.

Esse testemunho já fornece uma pista de algo que não pode ser esquecido. Somos frágeis e finitos. Não nos acrescenta nada lutarmos por mais dinheiro, mais fama ou mais poder.

Entretanto, nossos dias nos mostram as espinhas dorsais complacentes dos que rastejam em busca de cargos. Querem orbitar em torno ao poder, seja ele exercido por quem for. Não vendem a alma, porque já não dispõem dela. Foi há muito gratuitamente entregue, pois estava naquela velha bacia que as contém, para o príncipe das trevas.

Aquilo que os nossos maiores produziram e que resta esquecido nas bibliotecas, tão pouco visitadas por quem delas mais necessita, se fosse recuperado, seria a receita para devolver ao Brasil não apenas a esperança, mas a certeza de dias muito melhores.

É isso o que não pode ser esquecido, sob pena de mais um retrocesso na lenta escalada civilizatória dos humanos neste sofrido planeta. Não a mediocridade tacanha e tosca, presente na maior parte das discussões travadas nos foros que deveriam cuidar, prioritariamente, das coisas sérias.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.