O que mais será preciso?

O que mais será preciso?

José Renato Nalini*

23 de julho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

A Europa inundada – Alemanha e Holanda – a Espanha incendiando-se. A mais grave crise hídrica no Brasil, em 91 anos. Focos de incêndio se multiplicando na Amazônia. O desmatamento desbragado. Continuam as invasões nas terras indígenas e áreas protegidas. Florianópolis perdendo terreno para o mar. E não há aquecimento global?

Será preciso mais alguma coisa para que os detentores de poder façam uso de sua razão para adotarem as medidas enérgicas e urgentes que possam reverter o rumo acelerado cujo final será o caos?

Paulo Coelho, o escritor brasileiro que mais vende – e que chegou à Academia Brasileira de Letras por ser um escritor que é lido no mundo inteiro – vive no exterior. Mora há mais de quinze anos em Genebra, na Suíça. Mas sabe tudo o que acontece no Brasil e acompanha a CPI da Covid online.

Ele diz que o Brasil hoje se reduziu a dois cartões postais: o desmatamento e a má condução da pandemia. Essa a visão que o estrangeiro tem deste país que já foi pioneiro na tutela ecológica de sua exuberante natureza. O Brasil é um dos países mais execrados do mundo. Já foi chamado de “pária ambiental” em inúmeros encontros.

Isso deveria repercutir no governo. Por escolha do constituinte, somos uma Federação formada por União, Distrito Federal, Estados e Municípios. Quando a União deixa de cuidar da natureza, ao contrário, incentiva os criminosos a acabarem com ela, é o momento de protagonismo dos governos subnacionais. Estados membros e municípios têm de se colocar frontalmente contrários a essa política ecocida e tudo fazer para que o ambiente seja restaurado em seus limites.

A cultura ESG, que no mundo inteiro já produz respostas promissoras para o maior desafio para a humanidade, que é o aquecimento global, tem de ser uma opção clara e concreta neste Brasil tão machucado por má condução do tema ecologia.

A maior urgência está mesmo no “E” de Environmental, o verbete inglês para meio ambiente. Há de se incorporar na filosofia estatal a convicção de que ESG não é algo que possa se confundir com o greenwashing, a falácia de quem se “converteu” para a ecologia só para ganhar mais dinheiro. Não. Tem de ser algo que realmente modifique a visão de mundo e transforme a atuação em todos os setores, para cuidar – paralela e simultaneamente – das questões ambientais, sociais e de governança corporativa. Para o Estado, isso quer dizer gestão inteligente, algo que nem sempre – ou melhor, quase nunca – ocorre no Brasil.

Basta verificar o que se veicula nestes dias nas redes sociais: enquanto em 2020 o governo federal gastou 788,95 milhões com saneamento básico, o “Fundão” eleitoral para 2022 pode chegar a 6 bilhões de reais! Ou, o que é ainda mais cáustico: “Fundo eleitoral é um dinheiro que será roubado de você para você eleger quem vai te roubar” (o erro pronominal impede a repetição de um terceiro “você”).

A receita para todos os brasileiros que atuam na gestão pública é aprender o que significa ESG. Ainda não há expertos numa área que precisa de conhecimentos complexos e profundos, na formação geralmente compartimentada de nossa educação convencional.

Mas existe o curso do IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, que já formou várias turmas. Insper, FGV e Fundação Dom Cabral também se dedicaram a preparar candidatos ao desempenho ESG. Enquanto isso, a London Business School já se entrega à formação de especialistas que tragam visão nova e respostas para problemas que são os mais prementes e atrozes. O depauperamento dos recursos naturais, a extinção da biodiversidade, a desertificação, a falta d’água e a miséria a se alastrar de forma aterradora.

Enquanto não surgem os MBAs em ESG, cada indivíduo, cada entidade, cada escola, cada empresa, pode e deve se entregar a uma espécie de “aquecimento”, essencial no aplainamento do caminho para essa nova era. Começar com os atos exatamente contrários aos que a ignorância, de braços dados com a ambição, está praticando em todo o Brasil e não só na Amazônia. Semear, plantar, cuidar, repor as árvores cortadas. Fertilizar, de maneira orgânica, o solo extenuado. Poupar água, pois há prenúncio de racionamento para setembro ou outubro.

Ou será preciso que ocorram outras desgraças para que essa conscientização possa nos animar a concluir que o projeto humanidade não é um fracasso?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.