O que leva ao descumprimento do isolamento social?

O que leva ao descumprimento do isolamento social?

Luan Diego Marques*

08 de abril de 2021 | 06h30

Luan Diego Marques. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando as primeiras medidas de isolamento social foram adotadas no Brasil, parte da população ainda vivia sua fase de negação sobre o que estava acontecendo. À medida que os casos aumentavam e a realidade se aproximava, uma preocupação, e em alguns casos até pânico, chegou.

Passado mais de um ano dessa situação, observamos uma redução da adesão popular às medidas de isolamento. Mas o que explica esse movimento?

A reação emocional mais comum frente ao novo ou desconhecido é a negação, que aconteceu enquanto o vírus estava na fase inicial em países Europeus e China. Observamos, naquele período, um movimento de dúvida e desconfiança de quanto as medidas eram necessárias ou se não eram um exagero. Após o aumento de casos um medo real tomou conta, o que facilitou o cumprimento das medidas de isolamento social.

Considero que os obstáculos enfrentados para o cumprimento das medidas se relacionam basicamente aos desafios que o próprio isolamento traz. Nós brasileiros, em sua maioria, temos como característica a relação próxima com o outro, o contato, o abraço e o que parecia ser fácil, revelou-se uma tarefa muito difícil.

Estudo preliminar realizado pelo departamento de Psicologia Social da Universidade de Brasília mostrou que a renda foi um fator importante para o descumprimento das medidas. A informalidade e os medos advindos dos riscos econômicos do isolamento pressionaram para que a camada mais vulnerável da população continuasse muitas atividades, por isso, uma boa política que garanta renda para essa população contribuiria no manejo desses medos.

Em 2019, o Brasil foi apontado pela OMS como o país mais ansioso do mundo. Por sua vez, a ansiedade relaciona-se a medos de incertezas, o que pode contribuir para uma maior desconfiança das medidas mais rígidas e facilitar seu descumprimento.

Hoje, boa parte da população possui um ritmo intenso de vida, seja nos estudos ou no trabalho. Passar mais tempo em casa significa precisar lidar com o tédio, isso piora substancialmente os níveis de ansiedade, sendo um facilitador para atitudes mais impulsivas como encontro com amigos, uso elevado de bebidas alcoólicas, festas entre outros.

Quanto mais velhos, mais dificuldade temos de modificar um comportamento. Por isso, observo forte resistência enfrentada em convencer alguns idosos, o grupo mais vulnerável, a tomarem parte das medidas de isolamento social.

Além do mais, esse mesmo estudo apontou que a posição política da população pode influenciar no cumprimento do isolamento. As visões políticas influenciam as opiniões individuais das pessoas, observa-se que a necessidade do isolamento tem sido questionada por opiniões públicas de grande impacto, contribuindo para uma sensação de validação da quebra das medidas.

Nunca foi tão necessário um movimento de consciência coletiva. Temos que respeitar e ajudar os outros nas barreiras que o dificultam de se manter em isolamento, que é a medida mais eficaz apontada pela ciência para conter o colapso do serviço de saúde e evitar mortes.

*Luan Diego Marques, médico psiquiatra, especialista em Terapia Interpessoal pelo Serviço de Assistência e Pesquisa em Violência e Estresse Pós-Traumático (PROVE) ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

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