O que fazer e o que não fazer na privatização dos Correios

O que fazer e o que não fazer na privatização dos Correios

Guilherme Juliani*

23 de fevereiro de 2021 | 06h40

Guilherme Juliani. FOTO: THIAGO BAUERMANN

Os Correios são uma das maiores empresas brasileiras. Atualmente, a estatal possui pouco mais de 11 mil agências de atendimento, tem 105 mil funcionários, realiza quase 5 bilhões de entregas por ano e seus serviços cobrem 100% do território nacional. No entanto, nos últimos quinze anos, vem sofrendo com diversos problemas como escândalos de corrupção e interferência política, que acarreta em greves constantes, por parte dos funcionários, queda da qualidade do serviço e prejuízo financeiro.

De acordo com o PROCON-SP, houve um aumento de 400%, entre março e junho deste ano, nas reclamações relacionadas ao serviço como problemas na entrega, roubos e/ou cargas perdidas. Além do mais, o Brasil encontra-se numa crise fiscal o que impede que haja investimentos e melhorias nos Correios, deixando-o ainda mais próximo da única solução a qual nós acreditamos ser a melhor: a privatização.

Com os problemas enfrentados pelos Correios e listados acima, a privatização pode reerguer a empresa e torná-la mais eficiente, pois, sem interferências externas e as amarras de estatal, vai poder receber investimentos massivos e gerar novos competidores dentro do ramo de transportes. Sem esquecer que a iniciativa privada tem maior capacidade estratégica de gerenciar uma empresa desse porte. Existem modelos bem sucedidos de privatização os quais podem sanar esses problemas.

Com o fim do monopólio, dos benefícios fiscais e até mesmo da fiscalização da ECT, abriria as portas para que diversas outras empresas começassem a se especializar em serviços que geralmente são exclusivos dos Correios: como carta simples e os pacotes Sedex, por exemplo. Isso significa uma expansão maior de serviços dentro do próprio país e também uma maior concorrência em todos os cenários, algo positivo para o desenvolvimento do mercado e a chance de surgir novos embarcadores.

No entanto, é preciso saber exatamente qual o modelo de privatização mais adequado para implementar por aqui, como isso ainda está sendo debatido, vamos ver dois modelos de privatização: um que deu errado e um que deu muito certo.

Modelo de privatização que deu errado:

A Argentina foi o primeiro país do mundo a entregar o serviço postal inteiramente para a iniciativa privada. Em 1997, durante o governo de Carlos Menem, a concessão foi entregue à empresa SOCMA (abreviação de “Sociedad Macri”), cujo dono era ninguém menos do que Franco Macri, pai de Mauricio Macri, que em 2015 se tornaria presidente do país. Em 2001, após uma investigação jornalística, descobriu-se que a SOCMA havia pago ao estado apenas o valor equivalente ao primeiro ano da concessão. Foram anos de serviços mal prestados num momento economicamente delicado para a Argentina. A Encontesa (Empresa Nacional de Correios e Telégrafos S.A.) voltou a ter o controle estatal em 2003, mas enfrenta hoje em dia uma série de imbróglio judiciais com os ex-controladores.

Modelo de privatização que deu certo:

Hoje em dia, os alemães possuem o que é considerado o melhor modelo de privatização. Logo após a queda do muro de Berlim, em 1990, enquanto o país passava por um processo árduo de transição, decidiram vender 50% das ações do Deutsche Post para o KfW, um banco público. No ano seguinte, venderam mais um lote com 29% das ações, dessa vez a oferta foi feita a investidores e não a uma única empresa. Eles conseguiram arrecadar 6,6 bilhões de euros, o que seria o equivalente a 29,9 bilhões de reais. Em 15 anos o governo alemão vendeu as ações restantes ao KfW, que por sua vez, as ofertou a outros investidores.

O modelo de privatização foi tão bem-sucedido que possibilitou que em 2002 a Deutsche Post comprasse a empresa norte-americana de entregas expressas DHL. Hoje, possui cerca de 550 mil funcionários, operando em mais de 220 países. Em 2018, surpreendeu quando anunciou uma receita de 61 bilhões de euros (algo em torno de 276 bilhões de reais).

O fato é que diante tantos problemas e com um modelo de privatização bem sucedido para se basear, a privatização parece ser realmente o caminho certo a ser seguido no caso dos Correios. Acredito que tal escolha vai abrir portas para o mercado, como também trará benefícios à população e também ao País como um todo.

*Guilherme Juliani é CEO do grupo Flash Courier

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