O que explica a taxa de inflação negativa apresentada em abril?

O que explica a taxa de inflação negativa apresentada em abril?

André Fernandes Lima*

19 de maio de 2020 | 12h30

André Fernandes Lima. FOTO: DIVULGAÇÃO

No noticiário dos últimos dias tem sido recorrente a apresentação de informações sobre a desaceleração da inflação, pois no mês de abril o IPCA (índice de preços ao consumidor – amplo, que é o índice oficial de inflação do país desde meados de 1999) apresentou resultado negativo, com uma queda de 0,31% em relação ao mês de março. Apesar de não usual, essa não é a primeira vez que isto acontece, se analisarmos o período posterior à adoção do regime de metas de inflação, em 1999, observamos que o IPC-A apresentou oscilação mensal negativa, não apenas agora em abril, mas por outras sete vezes, conforme se pode verificar na tabela abaixo:

Alguns pontos podem ser considerados nesta análise comparativa. Em primeiro lugar, o indicador deste ano representa a maior queda quando comparado às outras sete quedas anteriores. Um segundo ponto é o fato de que a moeda brasileira se depreciou frente à moeda americana em cerca de 36% desde o início do ano – em 30 de dezembro de 2019 o dólar valia R﹩ 4,03 e, em 30 de abril de 2020, R﹩ 5,49, pela cotação comercial/PTAX-venda – até o final de abril, conforme dados do Banco Central do Brasil. Um terceiro fator, bastante evidente, é estarmos vivendo uma pandemia que tem causado consequências bastante significativas, não apenas no cotidiano das pessoas, mas também na economia.

Em função dos fatores elencados acima, vale fazermos uma breve análise que pode nos ajudar a entender porque, embora tenhamos observado a depreciação significativa do Real frente ao Dólar, ainda assim a inflação tenha se apresentado negativa no mês de abril, o que pode parecer, em princípio, uma contradição, afinal boa parte do que consumimos vem do exterior e, portanto, deve sofrer os impactos da variação cambial.

Esta “pretensa” contradição se baseia no conceito econômico de pass-through da taxa de câmbio, que analisa o impacto das oscilações da taxa de câmbio sobre os preços domésticos praticados em uma determinada economia. Em princípio, o que se espera é que a diminuição do valor da moeda doméstica frente à moeda estrangeira ocasione elevação nos preços domésticos e, portanto, nos níveis de inflação desta economia. O que se verificou aqui, em abril, foi o contrário do estabelecido por hipótese na teoria. Isso não significa, entretanto, que a teoria econômica é falha em explicar a realidade, pois se analisarmos a relação entre inflação e taxa de câmbio ao longo do tempo, observamos que há uma correlação positiva no comportamento das duas variáveis, isto é, ambas caminham na mesma direção, conforme se pode enxergar no gráfico abaixo:

Da mesma maneira que não é a primeira vez que temos uma taxa de inflação negativa no país, também não é a primeira vez que o estabelecido a priori na teoria não é evidenciado na prática. Das sete ocasiões elencadas acima, em que tivemos uma taxa mensal de inflação negativa, em quatro delas houve situação similar à observada agora, isto é, de uma depreciação da nossa moeda frente ao dólar, quer se considere o período dos quatro, três, dois meses e de um mês anteriores à da ocorrência da taxa de inflação negativa.

A pergunta que se coloca, então, é sobre o que pode explicar o comportamento dessas variáveis e a resposta recai sobre o fato de que não é apenas a taxa de câmbio que explica a inflação. Existem diversos outros fatores que também têm influência no comportamento dos preços. Dentre eles podemos destacar a existência de insumos e de bens que foram produzidos anteriormente à ocorrência da perda de valor da moeda doméstica e que estavam estocados nas empresas, de forma que estavam sujeitos às condições econômicas anteriores, vigentes quando de sua produção e, assim, não sujeitos à variação cambial do momento de sua venda. Outro fator é relativo à sensibilidade do consumidor às oscilações de preços, o que impacta diretamente na demanda por bens e serviços. Com a pandemia que vivemos atualmente e em função da – necessária, por questões de saúde – situação de isolamento social, as pessoas têm permanecido mais em casa e, com isso, passaram a consumir menos de alguns dos produtos que compõem a cesta de bens correspondentes ao índice de preços. Esse menor nível de consumo de alguns bens, aliado à maior restrição orçamentária por parte das famílias, quer por conta da ausência de renda atual, quer por conta da incerteza quanto à renda futura, que leva as famílias a consumirem apenas aquilo que lhes é estritamente necessário, faz com que os vendedores diminuam o grau de repasse do aumento de custos de produção aos preços praticados na venda ao consumidor final.

E assim, portanto, vemos que continua valendo a velha e conhecida lei da oferta e da demanda, segundo a qual os preços atingirão um determinado nível de equilíbrio em função da relação entre a disposição em vender – por parte das empresas – e a disposição em comprar – por parte dos consumidores. Afinal, não adianta tentar vender algo por um preço que ninguém esteja disposto a pagar!

*André Fernandes Lima é mestre e doutor em Administração de Empresas, pós-graduado em Economia Aplicada à Administração e Finanças e graduado em Ciências Econômicas. É professor das disciplinas de Finanças Corporativas e Mercados Financeiros na Universidade Presbiteriana Mackenzie

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