O que esperar dos impactos da covid-19 na gestão de saúde no Brasil

O que esperar dos impactos da covid-19 na gestão de saúde no Brasil

Paulo Vaz*

17 de janeiro de 2021 | 04h30

Paulo Vaz. FOTO: DIVULGAÇÃO

A pandemia do coronavírus pegou todos de surpresa e causou um boom no sistema de saúde em todo o mundo. No Brasil, onde a situação de hospitais já não era favorável e com alto índice de pessoas morrendo nas filas a espera de atendimento ou até mesmo de tratamento para tantas doenças, não precisávamos de previsões para entender que a situação seria bem crítica, certo? Errado!

O fato é que o vírus já vinha se espalhando por outros países e trazendo diversos alertas que estaria em mais lugares dentro de pouco tempo. Mas, mesmo com algo previsível, a realidade foi ignorada. Realmente, foi preciso “ver para crer” o caos que estamos vivenciando até hoje.

Falar em curva de mortes crescendo exponencialmente se tornou algo cotidiano, enquanto o interesse para desafogar o sistema de saúde só diminui. Sem estratégias para frear o avanço do vírus, principalmente, durante as festas de final de ano e no verão, só demonstram o quanto os hospitais, seja eles privados ou públicos estarão cheios nos próximos dias. Uma constatação triste, mas totalmente real.

O tratamento dado pela gestão pública à área da saúde sempre foi um grande entrave, trazendo insegurança para os brasileiros. Segundo dados do Datafolha, em pesquisa encomendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), 55% dos entrevistados avaliam a saúde no Brasil como péssima ou ruim. Uma evidência de que a população sofre com o serviço, tendo como principais queixas o elevado tempo de espera, a falta de aporte financeiro ao Sistema Único de Saúde (SUS) e a má administração.

O grande problema relatado pelos entrevistados é o tempo de espera para procedimentos mais específicos e complexos. Dos cinco itens relacionados a atendimento que tiveram avaliação negativa de mais de 50%, três estão relacionados a prazos: tempo de espera para fazer cirurgias (61%), tempo de espera para realizar exames de imagem (56%), tempo de espera para conseguir consulta (55%).

Outra deficiência relatada foi a dificuldade em ser atendido por médicos especialistas, avaliada por 52% como péssima/ruim. A mesma porcentagem indicou como é difícil conseguir um leito de unidade de terapia intensiva (UTI) quando há necessidade.

Atualmente, existem ferramentas tecnológicas que podem ajudar a fechar algumas lacunas e desburocratizar o atendimento médico. Ainda assim, mesmo quando temos mil mortes diárias, há prefeitos e governadores que desviam verbas da área da saúde para outros fins.

No caso de doenças e epidemias, por exemplo, já é possível usar análise preditiva para prever possíveis consequências, desenhar alguns cenários, traçar estratégias para ajudar a população, pensar em possíveis medicamentos, criar mais leitos de hospitais e ter mais equipamentos para atender essas pessoas. Estas são apenas algumas das ações que o Brasil pode usar para salvar vidas.

É claro que a pandemia pegou todos desprevenidos, mas já estamos andando assim há algum tempo. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece vários serviços que devem ser reconhecidos, como tratamentos para doenças complexas, vacinação gratuita e uma série de serviços ao paciente. Mas o sistema não consegue atender de maneira eficiente nem metade da população.

Isso se deve a falta de investimento. Em 2019, a União aplicou apenas 13,54% da receita na saúde, ou seja, R$ 122,6 bilhões de acordo com o Relatório de Riscos Fiscais da União. As despesas com saúde pública chegam a 48% do total, enquanto os países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) investem uma média de 73,4%.

Por isso, algumas pessoas optam por pagar um plano de saúde privado, o que não é nada barato, para garantir um atendimento mais rápido e de maior qualidade. Entretanto, em meio a uma pandemia, somos todos iguais. As UTI e os leitos que se esgotam no sistema público, também ficam escassos na rede privada.

Diante de mais de 200 mil mortos por coronavírus no país, de acordo com o Ministério da Saúde, é necessário que a gestão pública esteja mais atenta às doenças que foram esquecidas no meio do caminho e até mesmo tenha estratégia para tratar as sequelas deixadas pelo vírus em muitos pacientes. Essas pessoas precisarão de assistência ainda por muito tempo e isso não é mais uma previsão, é uma realidade que está estampada e que precisa ser tratada.

*Paulo Vaz é sócio e CEO da Heads In Health

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