“O que é preconceito?”

“O que é preconceito?”

Veja o que um pastor evangélico disse ao filho; série de reportagens mostra novas famílias

Redação

27 de maio de 2015 | 05h00

novas famílias - testeira

Da esquerda para a direita: Davison, Fábio, Marcos e Felipe. Foto: Arquivo Pessoal

Da esquerda para a direita: Davison, Fábio, Marcos e Felipe. Foto: Arquivo Pessoal

Por Julia Affonso

Duas pessoas se conhecem, se apaixonam, decidem se casar e ter filhos. A vida do administrador Fábio Canuto e do advogado e membro da Comissão de Direito Homoafetivo da OAB/RJ, Marcos Gladstone, ambos pastores de uma Igreja Evangélica, no Rio, seguiu este roteiro, comum a milhares de pessoas.

“A nossa família é uma nova família, diferente, mas ela é normal”, diz Fábio, que tem dois filhos com Marcos.

No dia a dia da família, os pais trabalham e os meninos, um de 11 e outro de 12 anos, vão à escola. Nas horas vagas, as crianças fazem aulas de reforço e de inglês, jogam futebol no condomínio onde moram na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, e brincam com o cachorro Hugo, um buldogue francês.

“Eu sempre tive o sonho de ser pai, mas não só ter o meu filho. Eu queria ter um filho com a pessoa que eu escolhesse pra viver a minha vida, que tivesse amor, formar uma família”, conta Fábio Canuto.

Foram quatro anos de vida a dois, antes de dar entrada no processo de adoção, em 2010. Meses depois, em janeiro de 2011, eles foram chamados a um abrigo na capital fluminense. Lá, em fevereiro de 2011, conheceram seus dois filhos: Felipe, então com 6 anos, e Davison, na época com 7 anos.

“A gente tinha muito medo do preconceito, porque sabe que a adoção não é somente você ir a um abrigo e escolher uma criança. Essa é a parte mais fácil. O difícil é você também ser adotado pela criança. Tem gente que acha que porque a criança está no abrigo, você vai lá e pega. A criança também tem que te adotar e querer”, explica Fábio.

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A família frequenta uma igreja evangélica no Rio. Foto: Arquivo Pessoal

Naquele 4 de fevereiro, sentado em um banco do abrigo com duas barras de chocolate na mão, ele começou a conversar com os meninos. Felipe quis saber o que Fábio estava guardando. O administrador respondeu que era um presente para o filho que morava no coração.

“Ele falou: ‘Como assim seu filho mora no seu coração?’. Eu disse: ‘Eu ainda estou procurando, você não conhece ninguém que queira ser meu filho?”Pode ser eu?’, ele perguntou. Ali foi o momento mais feliz da minha vida”, conta Fábio. “(Em seguida) O Davison falou que também queria e ficou aquela briga de quem queria ser meu filho. Falei: Pronto, vim arrumar um problema e vou levar dois.”

E levou mesmo. O primeiro a deixar o abrigo para morar com o casal foi o mais novo. No dia em que a Justiça autorizou que Felipe fosse para a casa nova, Fábio conta que sentou com ele no sofá, na sala, e mostrou o álbum de fotos do casamento com Marcos.

“Você já tem sete anos, já entende muito bem. Você já percebeu que eu falo para você da sua avó, do seu avô e que você tem dois pais. Você percebeu que falta alguma coisa, não percebeu? Ele falou: ‘Uma mãe?’. Eu disse: ‘É, você sabe por que você não tem mãe?’. Ele falou: ‘Porque você é amigo do meu pai Marcos’. Eu falei: ‘Não, eu não sou amigo do seu pai Marcos. Eu sou casado com ele. Você vai ter preconceito?'”, lembra Fábio.

“Ele perguntou: ‘O que é preconceito?’. Eu disse: ‘Preconceito é algo muito ruim, que mora no coração das pessoas. Tem gente que não gosta da outra porque ela é mais gordinha, porque ela tem a cor da pele diferente, o cabelo diferente ou porque é o menino que gosta de menino ou porque é menina que gosta da menina. Isso é preconceito. Você não gostar da pessoa por algo que ela tem que vem com ela, nasceu com ela. Você vai ter vergonha? Não vai querer?’ Ele falou: ‘Não, pai, eu vou amar vocês dois do jeito que vocês são’. Eu me acabei de chorar, não esperava essa reação.”

Dois meses depois, Davison chegou para morar com o casal. A adaptação, conta Fábio, foi trabalhosa. No abrigo, segundo ele, os meninos viviam sem regras, sem ninguém que se dedicasse a cuidar dos dois.

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O buldogue Hugo, mascote da casa. Foto: Arquivo Pessoal

Felipe nasceu na Paraíba. De lá, foi para o Rio, onde morava com a mãe biológica, que um dia o levou para a escola e nunca mais voltou para buscar. Foi, então, levado para um abrigo da cidade. Davison é carioca. Filho de uma mãe viciada em crack e um pai morador de rua. Quando foram adotados, os dois não sabiam ler nem escrever.

“Eles têm tratamento psicológico, porque foram muitos traumas”, conta Fábio. “Fazem reforço (dos estudos) com uma psicopedagoga. A gente tem que consertar para proporcionar o melhor para eles. E isso talvez a sociedade não veja, não sabe. Só sabe dizer: ‘não pode, não quero’. Se não fosse a gente adotar, onde ele estaria? Quem seria esse garoto amanhã? Eu acho que seria mais um revoltado, enquanto se discute a maioridade penal”, diz Fábio.

Após a chegada dos dois, ele e Marcos tentaram adotar mais um filho. A criança, então com 11 anos, no entanto, não quis ficar com a família. Alegou a homossexualidade do casal como motivo.

“Ele disse que não queria ser adotado por dois homens, porque isso não era certo diante de Deus. A gente entendeu. No Estatuto da Família, eles querem falar o que não pode. Quem tem de decidir se quer ou não é a criança. Ela sabe do que passa, do que vive e aquilo que quer”, diz Fábio. “O que tem de prevalecer é o bem-estar da criança. Não é aquilo que o político quer, aquilo que eu queira. A criança pode ter o direito de escolher. Meus filhos tiveram o direito de escolher uma nova família.”

O casal agora quer adotar uma menina. Felipe e Davison deixaram bem claro para os pais que não querem um irmão. Ciúme, conta Fábio. Ele e Marcos se dividem nas tarefas de casa e nas festa e reuniões da escola. Na última, no dia das mães, os filhos optaram por não levar ninguém. Ao ser perguntado se queria levar alguma das avós, um dos filhos foi direto.

“Ele disse: não, pai, eu não tenho mãe, não vou levar mãe. Minha vó é minha vó. No dia da avó, se tiver festa, minha avó vai. É tão simples, a gente fica querendo complicar, dar um jeitinho”, diz Fábio. “Eu não espero mais nada da vida, porque eu me sinto uma pessoa realizada. Eu sou o que eu sou. Tenho minha casa, meu casamento, sou feliz, casado no papel, posso preencher casado. Tenho meus filhos, sem precisar mentir, sem precisar usar ninguém, sendo aquilo que eu sou. Para mim é uma vitória muito grande.”

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