O que bitcoin tem a ver com sustentabilidade ambiental?

O que bitcoin tem a ver com sustentabilidade ambiental?

Luciana Moralles*

23 de junho de 2021 | 15h40

Luciana Moralles. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nos últimos anos, dois temas têm chamado atenção do mercado consumidor em geral, são eles: bitcoins e sustentabilidade. Entretanto, no mundo dos negócios esses temas não estavam sendo tratados conjuntamente ou de forma sistêmica.

Como é do conhecimento notório, o uso de bitcoin se tornou popular quando as grandes empresas passaram a aceitá-las para pagamento de bens. Até então, as discussões levantadas quanto ao uso de bitcoins nos meios de comunicações referiam a sua rastreabilidade, confiabilidade, ausência de órgão central controlador, bem como inexistência de marco regulatório que pudesse dar segurança jurídica às operações realizadas.

Pois bem, o tema sustentabilidade, em especial o ESG ganhou atenção nos últimos anos durante a pandemia, vez que os investidores e as empresas sentiram o impacto da vulnerabilidade econômica gerada pelas questões sanitárias, ambientais e sociais e, ainda, na materialização de riscos não econômicos até então. Acredito que a capa da revista “The Economist”, edição de 21 de março do ano passado, a qual expôs a imagem do globo terrestre com a frase “Closed” (Fechada), é ilustrativa do momento histórico vivido.

Algumas empresas já estavam em linha com um mercado econômico em que se busca serviços e produtos que se adequem a uma economia de baixo carbono e que contribuam com as metas de emissão de gases de efeito estufa. Passada essa fase, o uso da tecnologia das criptomoedas como forma de pagamento para empresas integradas a esse novo mercado foi questionado pela análise do consumo da energia demandada.

Ocorre que o processo pelo qual a criptomoeda é gerada, denominado de mineração, bem como a sua transação advêm de diversos cálculos realizados por computadores de alta potência. Assim, o processo incorre no uso intensivo de energia, geralmente obtida a partir de combustíveis fósseis, principalmente carvão.

Evidentemente, o uso de fontes não renováveis e alto consumo energético ligadas às bitcoins trazem contradição e incompatibilidade com os atuais modelos sustentáveis adotados por alguns produtos de consumo. A sustentabilidade, por sua vez, tem atuado com grande importância nas decisões de mercado, ocasionando em debates pertinentes e influindo em decisões de compra dos consumidores que hoje estão mais exigentes quanto à questão socioambiental dos produtos adquiridos.

Tal realidade restou evidenciada no último mês, ocasião em que o CEO de uma montadora de veículos elétricos declarou que a empresa não aceitará mais o uso das bitcoins, em razão das consequências climáticas. Em decorrência da declaração, as cotações da bitcoin caíram em altas porcentagens, o que revela que os impactos das decisões relacionadas ao ESG influenciam os mercados financeiros e valuation das empresas.

*Luciana Camponez Pereira Moralles, advogada head da área ambiental e sustentabilidade do escritório Finocchio e Ustra Advogados

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