O que as práticas corporativas podem ensinar para a gestão pública

O que as práticas corporativas podem ensinar para a gestão pública

David Braga*

21 de outubro de 2020 | 11h35

David Braga. FOTO: DIVULGAÇÃO

A inserção de empresários e executivos de sucesso na carreira política parece ter se consolidado como uma tendência. Pelo menos, é o que se tem percebido ao longo dos últimos anos, com exemplos como os dos governadores de São Paulo, João Doria, e de Minas Gerais, Romeu Zema, além do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Nas eleições municipais que se aproximam, muitos candidatos também se enquadram nesse perfil. Do ponto de vista gerencial, o movimento pode ser interessante, quando consegue promover abertura mental, aplicação das melhores práticas do contexto privado à gestão pública, maior diplomacia na interação com os variados grupos sociais e a integração de ações com os demais setores para a criação de sinergias.

Nesse sentido, é importante salientar que é papel de um líder construir consensos e articular ideias e pessoas para a promoção de resultados consistentes. Ele é referência estratégica em qualquer organização, seja no ambiente corporativo das companhias privadas seja em cargos dos poderes Executivo ou Legislativo. E, à medida que é visto como referência e suporte aos liderados, precisa reunir características que envolvam questões técnicas, intelectuais, políticas e morais, além de agir com ética e transparência na administração dos recursos e na indicação de caminhos. No setor público, isso se torna ainda mais relevante, pois o impacto das decisões da liderança abrange um número muito mais expressivo de pessoas: a população de cidades, estados e países inteiros.

Por isso, é prudente que o administrador dos bens coletivos, tal qual aquele que atua no ambiente corporativo, reveja, permanentemente, suas dinâmicas de funcionamento, a fim de otimizar processos e rotinas e assegurar o melhor desempenho. Especialmente em um momento em que, entre as palavras e expressões mais comentadas em todo o mundo, estão transformação, tecnologia e modelos disruptivos, não cabe mais manter estruturas estagnadas e burocráticas. Sendo assim, torna-se relevante a criação de indicadores de performance, que objetivam mensurar os resultados esperados, aliada a uma comunicação eficaz com todo o time. Conforme o escritor, professor e consultor administrativo Peter Drucker, considerado o “pai da administração moderna”, “o que pode ser medido pode ser melhorado”. Ou seja, diante de dados e fatos, é possível aumentar o nível de eficiência da máquina pública.

Além disso, existem outras categorias de atuação presentes nas empresas privadas bem-sucedidas às quais a liderança política precisa dar atenção e aprimorar suas competências e habilidades para desenvolvê-las: gerenciamento das relações; valorização da equipe interna; uso da tecnologia (o que inclui apoio e fomento ao ambiente de startups); gestão de prazos e orçamentos; e perspectiva global. Esses aspectos são fundamentais, uma vez que planejar ações com eficiência e eficácia, bem como contar com profissionais especialistas nas diferentes áreas, muitas vezes procedentes do meio corporativo, é essencial para que o dinheiro público seja investido de forma assertiva.

Uma boa notícia é que, atualmente, já é possível perceber, na administração pública, a adoção crescente desses e de outros conceitos, discursos e práticas gerenciais típicos das organizações privadas – criatividade, postura empreendedora, inovação gerencial, gestão por resultados e por competências, além de contratos de gestão. Os termos, paulatinamente, aderem ao vocabulário e às ações do cotidiano das diversas instâncias, em todas as esferas. Avanços que são extremamente importantes no mundo atual, que tem se transformado de maneira acelerada em todos os segmentos da sociedade.

Logo, assim como os empresários, é imprescindível que as lideranças políticas tenham um mindset global e estejam sintonizadas com as mudanças que possam gerar impactos em sua gestão. Afinal, o líder político opera diretamente na execução de estratégias e de planejamentos governamentais, a fim de garantir melhor qualidade dos produtos e serviços prestados aos cidadãos. Consequentemente, trabalhar de maneira comprometida e preparada tecnicamente para fazer com que o Estado cresça de forma eficiente e sustentável é o mínimo que se espera da sua atuação.

*David Braga é CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent. Autor do livro Contratado ou Demitido – só depende de você e colunista da rádio BandNews

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