O que as Paralimpíadas podem ensinar ao Brasil

O que as Paralimpíadas podem ensinar ao Brasil

Mara Gabrilli*

24 de agosto de 2021 | 11h45

Mara Gabrilli. FOTO: ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO

A vida da paulista Jéssica Messali, 33, poderia ser uma montanha russa. Aos 26 anos, formada em administração de empresas e pós-graduada em gestão de pessoas, já ostentava uma carreira bem sucedida no mundo corporativo. Tudo parecia acontecer de forma tranquila até que um acidente de carro a deixou paraplégica. O esporte entrou em sua vida como ferramenta de reabilitação.

Sem grandes pretensões, conheceu o Instituto Mara Gabrilli, organização que fundei em 1997 para fomentar pesquisas para a cura de paralisias e apoiar atletas com deficiência. Em 2015, Jéssica já competia profissionalmente no ciclismo, mas pegou tanto gosto pela coisa que resolveu apostar numa modalidade mais desafiadora: o triathlon. Em 2019, já se tornava a primeira mulher cadeirante da América Latina a concluir um Ironman.

Focada em inspirar meninas e mulheres a buscar o esporte, Jéssica conhece bem o verbo superar. Em julho deste ano, quando se preparava para Tóquio, sofreu queimaduras severas nos pés e pernas. Precisou amputar parte do pé, mas não parou. A partir desta semana o Brasil e o mundo conhecerão essa guerreira, que chega a Tóquio colecionando lutas e vitórias.

Com Jéssica, chega também Maiara Barreto, mais uma atleta apoiada pelo IMG. Após um acidente de moto em 2009, sofreu uma lesão medular cervical e ficou tetraplégica. Perdeu movimentos não só das pernas, mas também de partes dos braços. Como já praticava natação e gostava do esporte, começou a usá-lo como forma de reabilitação. O resultado vocês já devem imaginar: Maiara é mais uma brasileira que nos orgulhará em Tóquio.

Histórias assim mostram a potência transformadora que é o esporte. A partir desta semana conheceremos muitas. Serão 253 atletas, a maior missão nacional paralímpica em um evento fora do país. O Brasil será representado em 20 das 22 modalidades que compõem o programa dos Jogos de Tóquio.

Mesmo com todas as dificuldades impostas pela pandemia, o que paira é o otimismo. O CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro) estabeleceu o top 10 como meta e ainda almeja alcançar a centésima medalha de ouro – faltam apenas treze para atingirmos os três dígitos. Para se ter uma ideia, nos Jogos Rio 2016, foram 14 medalhas de ouro, 29 de prata e 29 de bronze. Os números provam a força do nosso paradesporto, que traz resultados concretos e invejáveis para muitas nações. Um desempenho bem melhor se compararmos com os números do esporte olímpico tradicional.

À frente da presidência do CPB, Mizael Conrado acredita que o Brasil deve conquistar entre 60 e 75 medalhas. E eu não tenho dúvidas, pois o paradesporto brasileiro não poderia estar em melhores mãos.

Mizael sempre foi um ativista dos direitos das pessoas com deficiência. Além das questões relativas ao esporte, participou ativamente da construção da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (13.146/2015), relatada por mim quando era deputada Federal. Sua contribuição foi fundamental para trabalharmos o aumento do repasse de recursos das loterias federais do país para o Comitê Paralímpico Brasileiro.

Essa mudança necessária garantiu condições de igualdade ao paradesporto brasileiro em relação às demais modalidades não paradesportivas. Possibilitou ainda recursos para a capacitação e o treinamento de ponta de nossos atletas, que hoje podem apresentar melhores condições de competitividade com atletas internacionais. Foi com recursos permitidos pela aprovação da LBI, por exemplo, que conseguimos finalizar a implantação e realizar a manutenção do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, inaugurado em 2016 na cidade de São Paulo.

Atualmente, o CT é o principal centro de excelência do Brasil e da América Latina e um dos melhores do mundo do esporte de alto rendimento. Nossa Jéssica Messali, por exemplo, treina lá. No CT ela encontrou toda a infraestrutura que precisava para desenvolver seu potencial. E é isso que todo paratleta precisa: oportunidade.

Não restam dúvidas de que o esporte é uma das maiores ferramentas de inclusão que uma nação pode oferecer. As outras são educação, cultura e trabalho. Quantas crianças com deficiência não podem ser inspiradas por esses atletas? Quantas não poderiam nadar como um Daniel Dias ou correr como um Odair Santos? Quantas meninas não podem seguir o caminho da Jéssica Messali no Triatlon ou brilhar nas águas como a Maiara Barreto?

Temos a chance de tirar do ciclo de invisibilidade milhões de brasileiros com deficiência que vivem à margem de uma das piores políticas de dispensação de órteses e próteses do mundo, onde a espera por uma cadeira de rodas pode chegar a cinco anos em determinados lugares do Brasil. Nossa reabilitação, apesar de contar com serviços de excelência, não consegue atender a real demanda em todo o país. Sem falar nos governos que até hoje não sanaram a dívida histórica com o segmento e não garantiram o pleno direito à inclusão nas escolas e a equipamentos culturais acessíveis. Temos, ainda, a oportunidade de olhar para nossas crianças com deficiência e lutar pelo aprimoramento da rede regular de ensino, onde todos os alunos, com e sem deficiência, possam juntos praticar esporte em nome da diversão, mas também da saúde, da convivência pacífica, da aceitação.

Temos, sobretudo, a partir de nossos paratletas, a chance de olhar para o Brasil sob uma nova ótica, sem capacitismos, sem discriminação, sem diferenças. Um movimento que, infelizmente, não condiz com o Brasil de hoje, que tem um Ministro da Educação que segrega e faz paralelismos inadequados sobre a separação dos jogos olímpicos e paralímpicos, só para propagar mais preconceitos. Sob essa ótica descabida do ministro, questiono se ele gostaria de instituir escolas segregadas para mulheres, já que elas não competem com os homens. Uma volta ao século XIX!

Que as Paralimpíadas sirvam como um exercício para muita gente neste país. O exercício de suprimir a arrogância de acreditar que se pode mensurar a capacidade do outro. A arrogância de acreditar que a deficiência é um impeditivo para a realização de qualquer coisa.

É no esporte onde nossos paratletas escancaram para o Brasil e para o mundo que a deficiência só existe na falta de acessos, na falta de oportunidades. Que as Paralimpíadas provoquem esse pensamento e ampliem nosso olhar para possibilidades – as nossas, inclusive.

Podemos ser melhores, desconstruindo preconceitos ou qualquer impressão que possa ser criada sobre aparentes desvantagens de uma pessoa com deficiência. O limite só existe em nossas cabeças. Que os jogos de Tóquio sejam sinônimo de evolução e progresso para nossa nação.

*Mara Gabrilli, senadora (PSDB-SP), publicitária, psicóloga, foi secretária da Pessoa com Deficiência da capital paulista, vereadora por São Paulo e deputada federal por dois mandatos

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