O que as empresas aprenderam sobre saúde emocional em 2020?

O que as empresas aprenderam sobre saúde emocional em 2020?

Rui Brandão*

29 de dezembro de 2020 | 09h00

Rui Brandão. FOTO: DIVULGAÇÃO

Assim como escancarou os abismos de desigualdade social, obstáculos geográficos, econômicos e questões de saúde pública, 2020 também colocou uma lupa na real situação em que nos encontramos quando o assunto é saúde emocional, um dos principais, senão o maior desafio de nossa era. Há mais de quatro anos trabalhando ao lado de empresas e pessoas na democratização do acesso ao tratamento e desenvolvimento pessoal no tema, hoje ficou ainda mais claro o papel das organizações nesse contexto. Se pararmos para analisar, além de estar presente na maior parte da rotina de vida de qualquer pessoa, o trabalho pode ser causa de muitos problemas emocionais, mas também é porta de entrada para levar essa discussão adiante para outras esferas da vida. E as empresas começam a ocupar esse espaço.

Nesse contexto, vejo dois pontos muito importantes que fazem parte de um mesmo movimento que felizmente começa a ganhar fôlego. Em muitos momentos, as empresas foram vistas como vilãs da saúde emocional ou mesmo tinham esse tema como um tabu, algo que é realmente complexo de se tratar no ambiente corporativo. A verdade é que mais que a sua responsabilidade corporativa, a discussão e o papel das organizações nesse processo é algo que vejo como orgânico, já que todos que compõem aquela empresa precisam trabalhar seus relacionamentos para construir um ambiente mais saudável e próspero. Não é à toa que muitos negócios vêm investindo em uma área específica voltada para o wellbeing ou saúde emocional, separando essa responsabilidade do Recursos Humanos, como é o caso de grandes empresas como a Ambev.

Outro ponto importante desse progresso diz respeito a uma visão mais ampla da saúde emocional. Especialmente em um contexto de pandemia, é claro que o olhar para as doenças e transtornos são uma preocupação prioritária. No entanto, há mais a se evoluir no que diz respeito ao desenvolvimento socioemocional de um colaborador ou líder, por exemplo. A forma como nos relacionamos, as tomadas de decisões, a comunicação e a resiliência são questões que podem ser trabalhadas em uma jornada de desenvolvimento e que, com toda certeza, vão influenciar na forma como uma empresa posiciona-se e em seu desempenho.

Uma pesquisa da Mercer Marsh mostrou que um profissional perde, em média, sete horas semanais por estar vivenciando problemas emocionais, sendo estresse e depressão responsáveis por 67% dos “agressores” da produtividade. A cada geração, a preocupação com benefícios de saúde mental nas empresas cresce em grande porcentagem, sendo ponto crítico ou muito relevante para 70% dos profissionais da geração Z ao avaliar um empregador. Isso nos mostra o peso dos ambientes saudáveis na cultura organizacional, tendo efeitos diretos na produtividade e também na atração e retenção de talentos.

Vejo esse momento como uma revolução no mercado de trabalho e que tem encontrado na tecnologia um grande desafio, mas também uma grande aliada para o desenvolvimento de projetos voltados para a democratização do acesso à saúde emocional. Entendo que, da mesma forma que contamos hoje com um sistema de apoio consistente para a saúde, também é preciso desenvolver uma estrutura de apoio ao emocional que vai além da terapia, mas que possa nos apoiar em todos os pontos da vida, nos auxiliando para o progresso contínuo como seres humanos. Desenvolver habilidades emocionais e comportamentais é um fator chave para a competitividade empresarial, e, felizmente, as organizações perceberam essa tendência.

*Rui Brandão, CEO do Zenklub

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