O que aprender em 2021

O que aprender em 2021

José Renato Nalini*

11 de dezembro de 2020 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Por que a aparentemente invencível evasão do aluno do Ensino Médio? Ele tem discernimento e percebe que a escola permaneceu no passado e não consegue oferecer algo de útil e sedutor para a sua inquietação. Afinal, ele é um nativo digital, um millenial, já nasceu provido de um chip cognitivo que não se satisfaz com aulas prelecionais de conteúdos superados.

O Brasil perdeu algumas décadas e ficou na rabeira do mundo, em termos de educação. O excesso de diagnósticos, teorias, ensaios, dissertações e teses, em parceria com a volúpia das avaliações, fez perder o foco do que interessa: fazer com que o jovem se compenetre de que existe algo de instigante a ser desvendado. Se a sua curiosidade for corretamente estimulada, ele disparará em apreensão do conhecimento e competirá com a juventude antenada do Primeiro Mundo.

Há poucos anos, o Conselho de Competitividade dos Estados Unidos e a Deloitte detectaram as dez tecnologias mais promissoras para os próximos anos. Todas elas têm atrativos capazes de fazer o educando se esmerar na assimilação de saberes que transformarão sua vida, assim como já transformaram o convívio entre os humanos na sociedade digital.

É preciso despertar o alunado para apreender o que seja análise preditiva, que se serve de uma vasta gama de técnicas estatísticas, matemáticas e analíticas para prever eventos futuros ou comportamentos baseados em dados pretéritos. No mundo da incerteza que nos é apresentado, um mínimo de previsibilidade não faria mal à sociedade brasileira, cujas fraturas foram expostas na pandemia.

O momento é o de dominar as funcionalidades dos produtos conectados e inteligentes e de substituir a manufatura colonial que ainda vige em tantos espaços, por fábricas inteligentes. A mocidade brasileira não tem noção exata do que significa a sigla IoT, a Internet of Things, a mágica fusão de software, sensores e conectividade de rede que permite interação digital entre objetos e máquinas e entre estes e o ser humano.

Quando o jovem descobre a potencialidade disso, ele se apaixona e vai se aprofundar na apreensão de um sólido conhecimento. Ele precisa ser alertado sobre os materiais avançados, com a crescente descoberta e fabricação de novos materiais como metais leves e de alta resistência, ligas de alta performance, cerâmicas avançadas e compósitos, materiais críticos e polímeros bio-based. Há inúmeras vocações ainda ocultas, que se dariam bem na área do design digital, simulação e integração. Campo a ser melhor explorado na conceitualização e construção digital de um protótipo virtual, ou de um processo virtual, que se alcança por meio de simulação computacional de produtos ou processos físicos.

Aprender computação e programação, campos em que a obsolescência persegue o estudioso, é fundamental. Principalmente quando o que se quer é uma computação de alto desempenho, estratégia de utilização da capacidade computacional para obter melhor desempenho. O Brasil necessita de sistemas que funcionem acima de um teraflop ou 10 elevado à 12ª potência em operações de floating-point por segundo, para a resolução de problemas de elevada complexidade em ciência, engenharia ou negócios.

A meninada tem noção ainda superficial do que significa a robótica avançada, com as máquinas ou sistemas capazes de aceitar comandos de alto nível, direcionados a uma singular missão. Os exemplos são múltiplos: navegar para um local de trabalho e executar tarefas complexas em ambiente com mínima intervenção humana. A inteligência artificial já nos manipula e o machine learning é uma realidade. É urgente prover nosso tesouro maior, as novas gerações, de conhecimento suficiente para que não se permaneça na obscuridade, após perder o supersônico da História.

Sabe-se que existe a impressão 3D, processo aditivo de construção de objetos, camada sobre camada, em oposição a metodologias tradicionais de fabricação subtrativa como usinagem. A manufatura aditiva alarga o horizonte de possibilidades para atividades que serão necessárias em poucos anos e mostra que a digitalização 3D é método rápido e exato de transferir medidas físicas de um objeto para um computador em formato digital e de maneira organizada. É nisso que consiste o chamado 3D scan data.

Pouco se mostra ao aluno brasileiro em idade adolescente, do que significa o open-source design, ou open innovation, que permite resolução de problemas mediante solicitação de ideias e opiniões sobre produtos ou serviços, de um grupo qualificado de pessoas. Abrir a discussão propicia avanço no potencial de inovação, envolvendo-se no processo um grupo ampliado de stakeholders.

Existe ainda a realidade aumentada, tecnologia que acrescenta visão computacional e de reconhecimento de objetos, para transformar a informação, provendo-a de interatividade para que venha a ser manipulável pelo usuário. Algo que descortina múltiplas novas opções na construção do novo mundo. Aliás, já estamos nele. Alguns países estão bem à frente. O brasileiro é inteligente, é criativo, é engenhoso e empreendedor. Não falta dinheiro, nos milionários recursos destinados pelo Estado à educação e a possibilidade de investimento privado, inclusive do empresariado, que se servirá do pessoal formado à luz da Quarta Revolução Industrial.

Não se espere que o governo assuma a liderança, pois as discussões a que ele se entrega são focadas em interesses eleiçoeiros, imediatistas e personalíssimos. Educação é algo muito sério para ser entregue ao monopólio estatal. Há inteligência suficiente no Brasil real, longe de Brasília, para que a profunda reforma estrutural do sistema de ensino/aprendizado se faça com a participação da lucidez que paga a conta. É isso que as novas gerações esperam. E elas merecem.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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