O que acontecerá com as agências bancárias?

O que acontecerá com as agências bancárias?

Willian Kahler*

23 de fevereiro de 2021 | 07h15

Willian Kahler. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há alguns anos, participei como expectador de um evento para apresentar novos produtos e oportunidades de negócios sobre um investimento cujo alvo era a aquisição de agências bancárias. À época, o conceito parecia agradar a muitos, mas, durante a reunião, um participante questionou o apresentador sobre os vencimentos dos contratos de aluguéis. A resposta foi a seguinte: “Você já viu uma agência de banco virar outra coisa?”.

Francamente, essa colocação fez a mim e, acredito, a muitos outros pensarem que, realmente, não há lembrança de uma loja que antes foi agência de banco. Também faz sentido pensar no que acontece com os caixas eletrônicos e onde as pessoas sacarão dinheiro. O intuito aqui não é julgar a eficiência ou qualidade de qualquer investimento específico que tenha essa finalidade. Apenas trouxe a memória para avaliar como frases de efeito muitas vezes ativam o emocional e nos fazem esquecer das questões lógicas e racionais.

Embora naquele momento fossem alternativas interessantes, os mercados e as tendências mudam. Dessa forma, posso afirmar que veremos muitas agências de banco virando “outras coisas”. Apenas no ano passado, os bancos fecharam 1.444 no nosso país. Isso representa 78% a mais do que em 2019, segundo dados do Banco Central. E não para por aí. Basta fazer uma rápida pesquisa para encontrar notícias das estratégias dos bancos para enxugarem suas estruturas em 2021, como o Banco do Brasil, que deverá desligar cinco mil pessoas no primeiro semestre.

Esses movimentos são reflexos da necessidade dos grandes bancos de não apenas digitalizarem, mas também automatizarem boa parte dos seus produtos e serviços. É o que tende a acontecer com instituições com atendimento precário, ainda mais quando boa parte das suas respectivas gamas de produtos são self service ou de fácil distribuição por canais digitais. Porém, se quisermos entender mais sobre os possíveis desfechos dessa tendência no Brasil, é preciso olhar para mercado cenários em mercados mais desenvolvidos, onde esses acontecimentos já começaram há algum tempo.

Basta analisarmos o comportamento mercado norte-americano após a crise de 2008, por exemplo. Nos últimos 10 anos, foram fechadas 27.943 agências bancárias nos Estados Unidos (fonte: FDIC – Federal Deposit Insurance Corporation). Esse movimento, que deva ocorrer aqui também, potencialmente será muito mais acelerado em nossa país na próxima década, porque os grandes bancos têm necessidade de reduzir seus custos para acompanhar as fintechs. Além disso, há maior aceitação dos clientes com as ferramentas de comunicação digitais a partir da pandemia da Covid-19, contribuiu para a redução da necessidade das reuniões presenciais sobre assuntos superficiais. Uma das consequências será a extinção de diversos empregos.

Porém algumas necessidades financeiras das pessoas demandam um atendimento diferenciado, e com esse “distanciamento” entre a instituição e o cliente, algumas lacunas que já existiam tendem a ficar ainda maiores, como no caso dos investimentos. Os investidores precisam de profissionais especializados que defendam os seus interesses e os acompanhem durante toda a sua vida financeira, guiando-os pelas mais diversas complexidades do mercado e para mantê-los atualizados das muitas mudanças de cenários e os seus respectivos impactos nas aplicações financeiras, como no caso citado no início desse texto.

É por esse motivo que, na contramão dos grandes bancos, algumas empresas de assessoria de investimentos, que são focadas na distribuição de aplicações financeiras através de atendimento personalizados, estão ampliando suas estruturas e quadro de funcionários. Como sócio responsável pela área de expansão de um dos maiores escritórios de investimentos do País, a Messem Investimentos, vislumbro que em 2021 teremos o maior crescimento do setor até então. E mais, a perspectiva para os próximos três anos, é que deverá ocorrer migração de aproximadamente R$ 3 trilhões de reais dos bancos para estruturas independentes. Hoje, sem dúvida, é o momento certeiro para se posicionar nesse segmento.

Meu conselho para quem trabalha em bancos é não esperar que a “compactação” dessas instituições chegue até vocês ou sua área. É possível antecipar-se, focar em agregar serviço de qualidade, pois quando uma porta se fecha outras se abrem e o profissional bancário, em geral, possuí um “fit” muito bom com a atividade de assessor de investimentos. Acredito ser sempre melhor tomarmos uma decisão de transição quando ela está em nossas mãos e não na de terceiros.

*Willian Kahler é sócio-diretor da Messem Investimentos

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